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Surdos aprendem a "ouvir pelos olhos"

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

Um avião passa no céu e o menino não olha para cima. A mãe liga o liqüidificador na cozinha e a menina não percebe o ruído. O pai abre a porta do quarto e o bebê, deitado no berço, não acorda. Estas e outras situações podem significar que uma criança tem deficiência auditiva. Hoje, quando é comemorado o Dia Nacional do Surdo, conclui-se que é possível superar o choque do problema e levar uma vida normal.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são cerca de 6 milhões de deficientes auditivos no País. Além disso, estima-se que 50% das pessoas com mais de 65 anos apresentam alguma perda auditiva. No mundo, a surdez ocupa o terceiro lugar entre todas as deficiências.

Em Bauru, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo, o Centrinho, tem por volta de 20 mil deficientes cadastrados em seus programas de reabilitação. De acordo com a assessoria de imprensa do hospital, desde 1990, quando começou a ser prestado auxílio nesta área, são cerca de 1.300 casos novos ao ano, atendidos exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Já foram oferecidos mais de 11 mil aparelhos auditivos e realizados mais de 300 implantes cocleares, com um dispositivo eletrônico colocado cirurgicamente no ouvido.

Na opinião da psicóloga Salimar Estilac Sandim Demétrio, que trabalha no Centrinho com orientação, aconselhamento e adaptação de pais e crianças com deficiência auditiva, a maior dificuldade na descoberta da surdez é a aceitação do problema. “Se o filho é surdo, os pais se sentem impotentes e incapazes para lidar com ele. Eles se tornam permissivos e superprotetores, e acabam desenvolvendo apenas uma comunicação não-verbal com o filho, que é exatamente o que a gente trabalha para não acontecer”, relata.

Os pais podem notar uma possível deficiência auditiva quando a criança não se assusta com ruídos como trovão e rojões, dorme tranqüila mesmo com barulho alto, não entende o que os outros fala, perguntando sempre “O quê?” ou “Ahn?”.

Sentimentos de raiva, de culpa, negação e impotência são muito comuns quando os pais descobrem o problema, numa maneira inconsciente de buscar defesas para o inesperado e o desconhecido. Salimar afirma que o primeiro passo para a aceitação é saber que a criança, mesmo com a surdez, é capaz.

“Quando temos um filho com uma deficiência, vemos como somos vulneráveis. E a negação volta em todos os momentos de desafio da criança: quando entra na escolinha, a aceitação dos coleguinhas, a alfabetização, a mudança de professores, o respeito dos amigos”, explica a psicóloga.

A orientação principal aos pais é estimular a criança, desde cedo, como eles vinham fazendo antes de saber da deficiência. Segundo Salimar, muitos pais deixam de falar, de escutar música e brincar com a criança quando sabem que ela não escuta.

“A surdez é um motivo a mais para continuar com os estímulos, mas precisa manter contato do olho no olho com ela. Os pais têm de utilizar as expressões faciais, dizer coisas compatíveis com suas expressões, mostrar que está feliz, que está triste”, exemplifica a psicóloga.

Se o bebê ou a criança aponta um objeto, os pais devem dizer o que é, pois é possível aprender a falar através da leitura labial. â€œÉ como se a criança ouvisse pelos olhos, nesse primeiro momento. Ela tem um distúrbio de comunicação, então não adianta falar de uma coisa que ela não está vendo ou não tenha vivenciado”, diz Salimar. O estímulo de conversar com a criança, olhando para ela, demonstrando as coisas, permite essa evolução.

A partir do momento em que a criança começa a perceber que o som existe, é importante mostrar que não há barulho pelo barulho, mas sim que ele corresponde a alguma coisa que está acontecendo. “Se passa uma moto, os pais devem mostrar. Se liga o liqüidificador, mostrar que a gente está fazendo alguma coisa de comer ou beber, e não que é só um ruído, porque a tendência assim vai ser de ignorá-lo. Se você chama a atenção, tem de procurar passar uma informação a ela”, diz.

Experiência

Salimar sabe do que fala pois vivenciou tudo o que passa aos pais que atende atualmente no Centrinho. Seu filho Stephan, hoje com 24 anos, é surdo, e a psicóloga teve de aprender como lidar com o problema dentro de casa, dando força e estimulando a auto-estima do filho sem deixar o choque da deficiência tirar o equilíbrio da família.

“Stephan nasceu prematuro, com 6 meses, ficou na incubadora, então vários fatores podem ter levado à surdez. Mas desde pequeno ele usa o aparelho. Há pais que escondem o filho deficiente, tiram o aparelho em público. Pelo contrário, eu não deixava ninguém perguntar, já ia falando. As perguntas me ofendiam”, conta.

Atualmente, Stephan leva uma vida independente, e segundo sua mãe, tem uma auto-estima tão alta que às vezes é preciso “baixar sua bola”. Ele se formou no ano passado em administração e comércio exterior. Trabalha, tem um carro próprio e se diz totalmente independente.

Stephan trabalha há conco anos como técnico de informática no Centrinho. Ele conta que sua deficiência auditiva não lhe causa nenhum problema no trabalho. “O pessoal já me conhece, então sabe que precisa falar um pouco mais devagar para eu compreender, mas eu entendo tudo, sem problema”, diz.

Na faculdade, a sala de Stephan tinha poucos alunos, e ele diz que os colegas o ajudaram quando ele tinha alguma dificuldade. “Como a sala era pequena, meus colegas iam dando uma mão, me explicavam alguma coisa que o professor tinha falado muito rápido e eu não tinha compreendido”, relata.

Stephan comenta que pretende trabalhar com administração, e está estudando e prestando alguns concursos. Além disso, ele ainda conversa com pais e crianças no Centrinho, contando de sua deficiência e mostrando como atualmente ele é um jovem independente. “Eu dou o meu depoimento para motivar os pais. Passo o meu exemplo, de como eu consigo fazer as coisas e levo uma vida normal. As pessoas sempre ficam emocionadas, pensando que se eu consegui, o filho delas também vai conseguir, e eu gosto muito de passar isso para elas”, afirma.

“A cura não existe, por isso a primeira reação dos pais é de um grande choque. Mas é muito importante ter expectativa, acreditar no potencial da criança e se empenhar para acreditar e fazer ela acreditar que pode fazer tudo o que as outras crianças fazem, e até melhor”, conclui Salimar.

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