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Domingo ilegal


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A farsa grosseira do programa de Gugu Liberato, no qual pessoas conhecidas foram ameaçadas de morte, é um caso de polícia. Nada justifica que esse erro seja punido com outro, praticado pela Justiça Federal de São Paulo, que atropelou todas as etapas de um processo judicial e suspendeu o programa no último domingo. Foi uma censura prévia, entulho autoritário que já deveria ter sido removido depois de 25 anos da revogação do AI-5, criado pela ditadura militar para cercear o direito à livre expressão. A Constituição brasileira tem dois dispositivos, um afirmando que esse tipo de atividade independe de censura ou licença e outro que proíbe qualquer tipo de censura. Nem a proibição liminar do programa se justifica porque a sua continuidade normal não iria causar qualquer dano, por pior que seja o lixo cultural apresentado. Defendo que a justiça, ouvida a defesa, estabeleça punição final para os culpados.

A única intervenção do Estado que a Constituição admite é a classificação dos programas por faixa etária a fim de deixar para tarde da noite aqueles de conteúdos menos edificantes, que as crianças não deveriam ver.

É verdade que a entrevista fictícia com os dois integrantes do Primeiro Comando da Capital foi uma apologia ao crime. Abjetas as pseudo ameaças de morte ao padre Marcelo Rossi, ao vice-prefeito de São Paulo Hélio Bicudo, aos apresentadores de programas policiais José Luiz Datena (Bandeirantes), Oscar Roberto de Godoy (Record) e Marcelo Rezende ( Rede TV!). Até o PCC protestou contra essa falta de escrúpulos.

As vítimas, que também são do metier televisivo, no fundo, devem ter achado ótimo porque exploraram o assunto por horas e dias em seus respectivos programas. Gugu também se diz vítima. Jurou inocência no sofá da Hebe que até chorou com suas declarações. Talvez de constrangimento ao ver o coleguinha massacrado pelos meios de comunicação e pela justiça. Gugu jura, a exemplo de um prefeito afastado, que a culpa é dos funcionários que, aliás, são todos competentes. Se assim agiram foi por exigência do sistema. Como o sistema não pode ir para a cadeia, a única sentença possível seria ficar tudo como está.

Gugu vem abusando há longo tempo. As garotas da banheira à procura de notoriedade, sempre mereceram vistas grossas pela exibição em horário de babá-eletrônica. Há cerca de dois anos e meio, a produção do programa fez um acordo com o líder de uma rebelião na Penitenciária de Cuiabá. O preso que comandava o motim alegou que só encerraria a baderna depois de dar uma entrevista no Domingo Legal. Acabou degolado pelos próprios companheiros de prisão e mais cinco pessoas morreram nos confrontos internos.

Com a desativação do Carandiru, Gugu levou uma vidente para percorrer os corredores onde 111 presos foram massacrados. A mãe-de-santo despejou sal grosso colorido e uma poção preparada com ervas para libertar as almas que insistiam em continuar vagando pelos corredores. Recentemente, o apresentador quis liderar uma cruzada para libertação de Afro X, traficante e homicida, pelo fato de ser marido da cantora Simony, como se isso fosse motivo de diminuição de pena.

O objetivo das emissoras de televisão com a exibição desse circo humano é ganhar Ibope. Cada ponto representa mais dinheiro em publicidade. O público assiste às baixarias porque a curiosidade é inerente ao homem. Mas isso não significa que o telespectador esteja concordando com as farsas. Tanto é que as empresas sérias se negam a anunciar nesses programas com medo de contaminar os seus produtos. A Petrobrás cancelou uma grande campanha de merchandising que incluía reportagens em que o Gugu visitava projetos sociais patrocinados pela empresa. Essa é a punição ideal para quem abusa do direito de expressão artística. Pelo menos, enquanto o povo não resolve desligar a TV para fazer algo mais útil. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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