Cultura

Sobre todas as coisas

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Não é exagero dizer que ele é uma lenda viva do jornalismo e da literatura no País. Carlos Heitor Cony debutou nas duas atividades ainda nos anos 50 e construiu nas décadas seguintes uma obra imensa, que vai do conto à tradução, da crônica ao texto para teatro, passando - obviamente - pelo romance e pela reportagem. Além disso também escreveu (e continua escrevendo) para jovens e trabalhou em televisão.

Imortal desde 2000, o carioca Cony é um senhor muito educado e simpático pessoalmente, um homem de uma fluência impressionante com um ar de lorde inglês (ou talvez de um nobre da Itália pré-republicana).

Antes de sua participação no Salão de Idéias da Bienal, anteontem, o escritor concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal da Cidade na qual falou sobre livros, mercado editorial, leitores e televisão. A seguir, os melhores trechos.

Jornal da Cidade - Com tantos anos de carreira, obras publicadas e prêmios recebidos, participar de eventos como a Bienal do Livro ainda tem um sabor especial? Carlos Heitor Cony - Tem um sabor. Quando eu estreei há quarenta e tantos anos atrás não havia eventos literários. Só no final dos anos 60 começaram as feiras do livro. Eram barraquinhas, camelôs, eram sebos. As editoras não entravam nesses eventos que eram feitos por pessoas ligadas aos livros, mas com barracas precárias como uma feira livre. Já era um avanço porque de vez em quando se convidava um escritor para dar autógrafos em praça pública. Depois da famosa Bienal de Artes Plásticas de São Paulo, no Masp, as bienais e salões começaram a ser realizados, o salão do livro, do automóvel, do couro. O livro, como um produto industrial como outro qualquer, que movimenta um mercado, também passou a ter seus salões. Mas mesmo assim foi de forma discreta. Só de uns cinco, seis anos pra cá que as bienais se tornaram megaeventos e também saíram só das grandes cidades. Antigamente, só Rio e São Paulo tinham bienais. Atualmente temos bienais em cidades até menores que Bauru. Esses eventos são um importante intercâmbio entre o autor, o leitor, o editor e o livreiro.

JC - O mercado editorial brasileiro cresceu muito nas últimas décadas, até pelo fato do livro - como o senhor diz - ser encarado como um produto industrial. Para o escritor esse crescimento se refletiu de uma maneira concreta? Cony - Sim, refletiu bastante por um motivo muito simples. Hoje, infelizmente, o Brasil tem mais editoras do que livrarias. Isso porque para editar um livro é preciso pouco investimento. Com oito ou dez mil reais é possível fazer dois mil exemplares de um livro de contos, de poemas, qualquer coisa. Então existem diversos editores pequenos, que publicam livros de poesias, literatura esotérica. Já as livrarias são poucas porque para montar uma loja você precisa de, no mínimo, 100 mil reais. Nem todo mundo está disposto a entrar no ramo. Evidentemente que as editoras grandes cresceram bastante. Durante muito tempo as editoras que se dedicavam à literatura e não aos livros didáticos eram poucas. Muitos livros eram editados na França e vinham de navio. Era terrível.

JC - Publicar um livro era mais complicado? Cony - O acesso era dificílimo. Hoje temos grandes editoras, com um esquema empresarial definido, as médias e as pequenas editoras, geralmente cooperativas de autores. De qualquer maneira, é muito mais fácil ter um livro publicado hoje do que no meu tempo.

JC - E o mercado consumidor no Brasil? É comum afirmar que o brasileiro lê pouco. Cony - O brasileiro lê pouco e dizem que é por causa do preço do livro, mas é um problema cultural. O Brasil foi uma colônia de Portugal por muito tempo, não tínhamos imprensa própria, tudo era importado. Quando a gente pensa que Machado Assis e outros autores, até o início do século 20, imprimiam seus livros em Portugal e na França e as tiragens eram pequenas, de mil, dois mil exemplares... Hoje um autor médio tira quatro, cinco mil exemplares fácil. Mas em relação ao mercado geral, somos 170 milhões de brasileiros e ainda é insignificante o número de livros vendidos. O autor que mais vende no Brasil seria o Paulo Coelho, que aqui no País não vende um milhão de livros. A relação entre leitor e população em outros países é muito maior.

JC - Mas é só uma questão cultural? Cony - Além da questão cultural existe o preço. O livro é caro aqui mas também é caro em outros lugares. Um livro na França e nos Estados Unidos tem tiragem maior e isso diminui o custo, mas mesmo assim é caro. É preciso ver que nesses países o poder aquisitivo das pessoas é compatível com o preço dos livros, aqui não é.

JC - Em países como os Estados Unidos e Inglaterra existem versões de bolso mais baratas de grandes livros, mesmo os lançamentos. Por que isso não funciona no Brasil? Cony - Isso já foi tentado no Brasil e não deu certo. Atualmente é assim: primeiro faz-se o livro em uma edição nobre, de brochura. Conforme o livro tem ou não aceitação ele vai recebendo alterações como capa-dura, versão de bolso... Mas desde que tenha sido previamente aprovado pelo mercado. Deveria ser o contrário.

JC - O seu último livro foi publicado este ano. Cony - É, “A Tarde da Sua Ausência” saiu em maio, mas saiu com pouca divulgação porque eu estou trabalhando em outros projetos. Um livro infanto-juvenil que vai ser publicado pela Salamandra, “O Mistério das Jóias Coloniais”, e um de reportagem que vai sair pela Objetiva, “O Beijo da Morte”, que fala sobre a morte de João Goulart, Carlos Lacerda e do Juscelino. Eu levantei todas as hipóteses das três mortes que até hoje têm várias versões. Eu analisei essas versões e fiz o livro.

JC - A edição comemorativa da revista Veja desta semana afirma em uma de suas matérias que a televisão no Brasil ocupou o espaço que o cinema e a literatura não conseguiram ocupar. O texto vai mais longe e diz que o Brasil continua sendo o País de um só autor: Machado de Assis. Como o senhor encara uma afirmação desse tipo? Cony - É uma afirmação exagerada. Em linhas gerais está certo, é uma obviedade. Mas não é bem assim. A televisão ocupou o lugar do cinema e da literatura até certo ponto porque são coisas diferentes, que não disputam o mesmo público. Os personagens da televisão são facilmente absorvidos, mas isso é efêmero. As pessoas não se lembram de novelas de dez anos atrás, mesmo as mais famosas. A literatura é diferente, ela não tem a mesma abrangência da televisão. Um livro do Paulo Coelho, por exemplo, mesmo que venda um milhão de cópias ainda é muito menos do que a televisão, que pega 70, 80 milhões de pessoas. Mas a televisão é de tal maneira efêmera que desaparace, não fica na cabeça da pessoa. A literatura permanece e não só no caso do Machado de Assis, mas também do Lima Barreto, um livro atravessa gerações, uma novela não. Quando uma novela sai do ar a novela seguinte toma o seu lugar e ninguém lembra da outra. Eu trabalhei na Manchete, fizemos muitas novelas como “Pantanal”, “Dona Beija”, “Kananga do Japão”... A televisão é uma espuma, como a espuma que se forma em uma onda. Tem o mar azul e a espuma da onda. A televisão é assim, uma espuma que tem volume mas desaparece logo.

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