Quando se fala em comida de hospital, vem logo à mente um pratinho sem graça, com um caldo ralo, feio e sem gosto. Ledo engano, segundo nutricionistas. Hoje, hospitais de todo o mundo investem em cozinhas industriais que seguem princípios de hotelaria - com cardápios balanceados, cada vez mais elaborados, saborosos e bonitos.
Esse conceito de que comida de hospital é ruim vem de um conjunto de hábitos e fatores que estão sendo duramente combatidos nos dias de hoje. Por um lado, há doenças que proíbem realmente a ingestão de determinados alimentos. Por outro, há a própria condição do paciente e alguns medicamentos que tiram o apetite e alteram o paladar.
Na prática, porém, a antiga idéia de que só se deve oferecer canja aos doentes está mais do que ultrapassada. Em visita a alguns dos hospitais da cidade, a reportagem encontrou desde suflês de legumes e tabule (salada à base de trigo) até pudins e estrogonofe de frango com batatas fritas.
A alimentação oferecida nos hospitais segue o conceito internacional da pirâmide de alimentos e prevê a ingestão de porções fracionadas no decorrer do dia. Em média, são oferecidas cinco refeições diárias, divididas em café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia.
Pacientes que não têm nenhuma restrição alimentar recebem a chamada dieta geral - a mesma que é oferecida para funcionários, médicos e acompanhantes. Os cardápios são semelhantes em todos os hospitais visitados.
No café da manhã e no lanche da tarde são permitidos café, chá, leite, pão, torradas, bolachas, geléia, margarina, suco e frutas. No almoço e no jantar, o paciente recebe arroz, feijão, uma guarnição à base de legumes, uma opção de carne e uma salada, acompanhados de suco e sobremesa (gelatina, pudim, musse). Antes de dormir, eles fazem uma ceia, com chá e torradas, por exemplo.
Mas nem todos os pacientes estão em condições de receber a dieta geral. Para atender àqueles que estão com o organismo debilitado e têm dificuldade de digestão, nutricionistas padronizaram cinco tipos de dieta: geral, branda, leve, pastosa e líquida.
Todas elas são feitas a partir dos mesmos alimentos, de acordo com o cardápio do dia. E são balanceadas para oferecer todos os nutrientes. A diferença está na consistência: quanto mais líquida, mais fácil a digestão.
Na dieta geral os alimentos são confeccionados à moda caseira. Na dieta branda, o arroz é mais cozido, o paciente só recebe o caldo do feijão e a carne é moída ou desfiada. Na dieta leve, arroz e feijão são substituídos por um caldo, servido junto com os demais alimentos. Na dieta pastosa, os alimentos são triturados e na dieta líquida o paciente só recebe sopas, sucos e vitaminas.
Fora isso, há as dietas individualizadas - para aqueles pacientes que não podem ingerir determinados nutrientes em função da doença que apresentam. É o caso, por exemplo, dos diabéticos, que precisam restringir o açúcar e moderar o consumo de alguns nutrientes.
Outro exemplo são as pessoas hipertensas, para as quais há restrição de sódio e, conseqüentemente, de sal. “A gente aprende a comer doces e salgados desde que nasce. Claro que se você tira o sal de repente, o alimento vai ser estranho ao paladar e a comida vai ficar ruim. A gente tem que compensar isso”, observa a gerente de Serviços de Apoio do Hospital Estadual Bauru, Rosana Regina Cardoso Geraldo.
Na opinião dela, a dieta mais difícil é a que é prescrita ao paciente com problemas renais severos. “Ele só pode ingerir 500 mililitros de líquidos por dia. E além da restrição hídrica, também temos que restringir o potássio - substância que está presente na maioria dos vegetais, incluindo frutas, verduras e legumes”, comenta.
“No dia-a-dia, a gente encontra muita resistência. Mas sempre dizemos que a alimentação é essencial num hospital e fazemos tudo o que é possível para convencer o paciente a comer. A pessoa internada já não está bem. Se ela não se alimentar adequadamente, terá dois problemas”, observa a nutricionista Simone Tonelli Grassi, responsável pela cozinha do hospital da Unimed de Bauru.
“Eu penso que ninguém quer ficar num hospital. Mas, já que tem que ficar, que sua estada seja a melhor possível”, acrescenta.