Um dos grandes baratos de se olhar um quadro - seja de quem for a obra - é tentar imaginar o processo de criação do artista. Descobrir como ele construiu a imagem, o que fez primeiro, como mediu (ou não) as pinceladas, até que ponto e com que intenção se utilizou das cores...
As pinturas abstratas, que nos possibilitam sensações diferentes dependendo do local e distância de observação, são ainda mais fascinantes nesse sentido.
Apesar de não serem abstratos, esse fascínio está presente nos quadros que a artista plástica bauruense Viviane Mendes Silveira expõe a partir de hoje no Templo Bar. Eles são de uma beleza intrigante, que nos leva a perguntar: como isso foi feito?
O elemento da intriga é o fato de não haver uma resposta para o questionamento.
Intitulada “Exuberância”, a mostra possui onze telas da artista, que relacionou a exposição ao início da primavera, apesar do tema não ter tido influência na criação do acervo. “Fiz essa relação pelas cores dos quadros e a alegria que eles passam”, explica Viviane.
O novidade nos trabalhos é a técnica, que utiliza como tinta uma mistura de cola, água e verniz vitral usado para a pintura de vidro. Com a emulsão resultante, Viviane cria - no melhor estilo de Jackson Pollock - borrões e pingos que, aos poucos, vão tomando forma numa criação até certo ponto caótica, puramente instintiva.
“Eu sei mais ou menos o que eu quero pintar, mas nunca sei que rumo a pintura vai tomar porque eu vou fazendo por instinto”, diz. Detalhe: grande parte dos quadros foi feita em alguns minutos com a utilização de um pincel, um borrifador e um tubo de ketchup cheio de “tinta”. Eventualmente, outros materiais foram incluídos na receita, como areia, utilizada para dar textura a uma belíssima mandala.
Viviane, de 32 anos, é artista plástica há uma década e prima, antes de tudo, pela experimentação. Assim, já trabalhou com diversos tipos de matérias-primas e transformou num hábito a busca por novas técnicas e materiais.
“Não gosto de fazer o óbvio”, declara, lembrando que é a maior crítica da própria obra. A mostra que começa hoje prova isso. Nas telas, a artista apresenta formas conhecidas: flores, borboletas e mandalas, entre elas. Mas nada se parece com alguma coisa que pode ser vista facilmente por aí.
O fato de Viviane não saber desenhar pode ter ajudado. “Usei o não-saber a meu favor, quase sem querer. Deu até um certo medo algumas vezes por não conseguir saber o que iria acontecer, o que iria aparecer”, confessa, já que nem sempre consegue repetir fielmente o processo que inventou chegando ao mesmo resultado.
Com um método (ou melhor, um anti-método) assim, saber quando o quadro está pronto também é uma tarefa instintiva. “Só sei que a obra está terminada quando olho pra ela e sinto que não precisa de nenhum retoque”, explica.
Resumo da ópera: “Exuberância” é uma exposição que faz jus ao seu nome e merece ser vista pelo menos uma vez.
• Serviço
“Exuberância”, mostra dos trabalhos de Viviane Mendes Silveira. Abertura hoje, às 21h, no Templo Bar. Rua Benjamin Constant, 1-34. Informações: (14) 3223-3493.