Auto Mercado

Circulando: Paixão feita de aço

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Que o velho e bom “fusquinha” figura na galeria das paixões nacionais, a exemplo do futebol, do Carnaval e do churrasco, disso ninguém duvida. Entretanto, se há um modelo do mesmo veículo que certamente enquadra-se na expressão “ame-o ou odei-o” é aquele cuja cor predominante é o preto.

Não faltam motivos para os pertencentes à segunda “classe” destilar seu “veneno” contra o automóvel, mas o principal deles, sem qualquer sombra de dúvida, originou-se há mais de 20 anos. Nesta época, o cantor Almir Rogério, um dos ícones do cancioneiro “brega” nacional, praticamente “imortalizou” o veículo com a música intitulada “Fuscão Preto”.

Esta conta a história - real, segundo o músico - de um homem traído por sua mulher com o dono de um veículo com tais características. Por isso, graças à letra, o carro ganhou apelidos nada elogiosos.

Mas há quem não se importe com isto e faça questão de tratá-lo com verdadeira idolatria. É o caso do cartorário Isaías Rando Júnior, 47 anos, presidente do Clube do Fusca de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) e dono de vários modelos do gênero. “Sempre fui apaixonado pelo modelo e acho que já tive uns 40 ao longo de minha vida. O preto é mais um deles, mas é especial como os demais”, frisa.

O carro, do ano de 1970, não veio de fábrica com tal cor - originalmente era bege. Isaías conta que mandou pintá-lo porque fazia questão de ter um “Fuscão” preto. “Sempre sonhei em ser dono dele. E, para isso, cansei de procurá-lo, mas quando encontrava o estado de conservação não era dos melhores. Por essa razão, resolvi fazer um”, destaca.

Para isso, há cerca de dois anos, Isaías comprou um Fusca na cidade e não mediu esforços para deixá-lo com “a sua cara”. A primeira providência foi, obviamente, mexer na funilaria para pintá-lo da cor desejada. “Quando fui fazer a documentação dele, o despachante me perguntou se tinha certeza que queria o preto. Nem titubeei”, recorda o lençoense.

Na seqüência, Isaías tratou de modernizar mecanicamente o veículo. No lugar do motor 1500 cilindradas original, o cartorário adaptou um 1600 turbinado, além de freios a disco, câmbio com relações de marcha alongadas, rodas de liga leva aro 15 com pneus 195/50, lanternas traseiras iguais a do “New Beetle” e dianteiras estilo “tetinha”, e um painel com vários relógios marcadores do óleo, turbo, combustível e temperatura.

O resultado de toda “trabalheira” foi um carro antigo com visual extremamente esportivo, que chama a atenção pela beleza. “Compro e já fico idealizando o veículo. É uma das coisas que mais gosto de fazer na vida”, diz Isaías.

Apesar disso e de todo sentimento que nutre em relação aos fuscas de forma geral, o cartorário confessa também que resolveu ter o “Fuscão” preto para ser “diferente”. “Tê-lo é engraçado por causa da música e é uma forma de encher o saco dos outros”, brinca.

Mas, além de “encher”, Isaías também é “enchido”. Isso porque, freqüentemente, ele é alvo das mais variadas piadas quando está ao volante do Fuscão preto. Ele faz questão de dizer que sempre leva “na esportiva”. “Certo dia, um bêbado me viu com ele e não teve dúvidas: começou a cantar a música. Achei o maior barato”, recorda.

Quem também não costuma perdoá-lo são as crianças. “Moro em frente a uma escola e elas não perdem uma chance de zoar comigo por causa do Fuscão”, revela Isaías, rindo.

____________________

'Ninguém anda neles!'

Além de demonstrar sua paixão pelos fuscas, o cartorário também não faz questão de esconder de ninguém que é extremamente ciumento com seus “xodós”. “Ninguém anda neles”, garante. “A gente tem tanto trabalho para cuidar deles, como se fosse um filho, que só pode ter ciúme mesmo”, confessa.

Prova disso é que apenas um mecânico tem “autorização” para mexer em seus fuscas, especialmente o preto. “Mas ele só conserta. Andar não deixo”, acrescenta Isaías. Apesar disso, ele garante que abre exceções. “Se a pessoa for muito amiga deixo dar uma volta. Caso contrário, vai só como passageira”, diz.

Outra característica marcante do cartorário é a persistência para conseguir determinados modelos do “carrinho”. Isaías conta que esperou 15 anos para tornar-se dono de um fusca 1970, um dos únicos de sua coleção que ele mantém as características originais. Para consegui-lo, “atazanava” sempre que podia sua ex-dona, uma mulher que trabalhava próxima à sua residência.

“Falava sempre que, se um dia fosse vendê-lo, não o fizesse antes sem falar comigo. A chance demorou, mas veio. Se a gente não pegar no pé, a pessoa esquece”, justifica. “Agora já estou de olho em um outro vermelhinho, cujo dono é um colega de trabalho”, planeja ele.

Mas Isaías também é decidido na hora de uma eventual venda. Ele é taxativo. “Simplesmente não os vendo. E olha que já tive propostas irrecusáveis”, conclui o lençoense.

____________________

Perfil

Nome: Isaías Rando Júnior Idade: 47 anos Profissão: Cartorário Lugar bonito: Campos do Jordão (SP) Hobby: Mexer com fuscas Cor preferida: Amarelo Time do coração: Corinthians

Quem nunca levaria em seu Fuscão preto? “Os políticos safados e corruptos.”

E quem você faria questão de ter como passageiros? “A família e a sogra.”

O que mais lhe irrita ao andar no trânsito? “A falta de respeito dos motociclistas.”

Que nota você daria aos motoristas que circulam em Bauru e Lençóis Paulista? “No máximo, seis, pois em qualquer dessas cidades o pessoal não tem respeito no trânsito.”

Comentários

Comentários