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Primavera de todos


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Não é a primavera, que aí se desenrola, algo privativo de todos quantos circulam nos ambientes e paisagens da natureza. E, lendo esta afirmação, muitos poderão admirar-se dela. Por que emiti-la assim, com cara e coragem, até desafiando o entendimento humano? Fazemo-lo pensando naquilo que quase ninguém pensa, pois que só conseguem testemunhar a bela estação das flores os que tenham condições de enxergá-la abertamente. E quem não as tem de maneira nenhuma? Diremos logo, desvendando o segredo que realmente existe: São eles os deficientes visuais, totalmente desprovidos de claridades oculares, gente infeliz que, por motivos diversos, nada percebe diante dos seus olhos. Para elas não existe, consequentemente, nem a primavera e nem as paisagens das demais estações do ano, o que é doloroso não só para elas propriamente como para os seus próximos, sempre tristes quando se encontram com algum cego conduzido nas ruas, a bengalas, por parentes e amigos dispostos a ajudá-los nas suas caminhadas. Sabe o jornalista, através de leituras, de tantos casos iguais, como o de uma menina-moça (Marina), bonita, alegre, cheia de projetos para o futuro, autêntica primavera em pessoa. Ela ama o mundo, o perfume das rosas, o aroma dos cravos, o cheiro das pessoas, mas nasceu com os olhos de brilho unicamente interno, e, por isso, não consegue imaginar como são as cores da natureza, porque é cega. Não pode divisar a magnitude do universo e se admirar com a beleza exterior e, em uma manhã primaveril, ditou para a irmã Luzia um versinho exatamente como concebia a tonalidade das flores que não tinha a ventura de ver:- o azul é a bondade, o vermelho a alegria, o branco a tranquilidade e o preto a companhia. Ser-lhe-ia isso unicamente a sua mínima visão das coisas existentes neste mundo por ela invisível? Certamente, em sentido provisório, porque se lhe falta penetração nos olhos verdes, imensamente tristes, carrega no coração vermelho a esperança de dias felizes, de integral continuação da vida, assim como a teimosia de uma fé imensa que se incumbe de dar-lhe a certeza de que um dia, em qualquer idade, os milagres do sol, da lua e das cores a conduzirão aos degraus de um altar divino, depositando em seus pés as flores que a primavera ora lhe esconde. Também ela, um dia, passará a ver tudo! É a nossa opinião.

O autor, N. Serra, é o jornalista responsável pelo JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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