Jorge Mautner é uma dessas pessoas difíceis de se descrever com apenas uma só palavra. Músico? Compositor? Escritor? Cineasta? Artista plástico? Poeta? Agitador cultural (seja lá o que isso signifique)? Talvez apenas criador. No seu caso, essa dificuldade acaba sendo até irrelevante quando se coloca em questão sua obra.
Em mais de 40 anos de carreira, Mautner acumula 13 livros publicados (o primeiro, “Deus da Chuva e da Morte”, de 1962, venceu o Prêmio Jabuti) e o mesmo número de discos - contando-se aí o compacto de estréia, de 1958, e o último, “Eu não Peço Desculpa”, uma parceria com Caetano Veloso, lançado no ano passado e que venceu o Grammy Latino de Melhor Disco de MPB este ano.
Além disso, escreveu “Jardim de Guerra”, filme censurado de Neville D’ Almeida, em 1968, e dirigiu “Demiurgo”, em 1970, um elogiado (e também barrado pelos militares) tratado sobre o exílio filmado em 16mm em Londres, com a participação de Caetano, Gilberto Gil e Jards Macalé. Isso sem falar das outras áreas de atuação.
É uma produção respeitável, principalmente pelo barulho que provocou e ainda provoca. Barulho no melhor sentido, claro! Carioca, filho de austríacos, nascido em 1941, Mautner marcou com seus trabalhos a produção cultural de várias gerações e continua na ativa, sempre surpreendendo quando não se espera que mais nada de novo vá surgir dele.
No ano passado foram duas rajadas: o disco com Caetano e o lançamento de “Mitologia do Kaos - Obras Completas”, edição da Azougue que reúne toda sua produção literária.
Mauter estará hoje à tarde no Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru num workshop com ares de bate-papo falando para um público seleto (são apenas 30 vagas) sobre sua carreira e seus trabalhos. À noite, na área de convivência do clube, ele faz uma retrospectiva do seu repertório musical cantando, entre outras canções, “O Vampiro”, imortalizada por Caetano em 1979, e “Maracatu Atômico”, sua composição (em parceria com Nelson Jacobina) mais conhecida pelas igualmente primorosas gravações de Gilberto Gil e Chico Science. No show, ele também deve intercalar poemas de sua autoria.
É uma oportunidade rara de se conferir de perto a performance de um homem que influenciou diretamente dos tropicalistas à galera do mangue beat com suas divagações conflitantes sobre bem e mal, irracionalismo e racionalismo... Enfim, toda a tensão do Kaos - título do seu segundo livro, talvez a obra que mais tenha marcado seu discurso - desse Hamlet contemporâneo.
Quem ainda não o conhece, não pode perder a chance. Quem já é fã, pode se deliciar.
• Serviço
Jorge Mautner no Sesc. Às 17h, workshop no ginásio para 30 pessoas. As inscrições estão abertas e a entrada franca. Às 21h, show, no ginásio. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.