Articulistas

Paz no campo


| Tempo de leitura: 3 min

O complexo agroindustrial brasileiro vem batendo recordes a cada ano no Brasil. Nos primeiros oito meses do ano, o setor exportou nada menos que US$ 19,2 bilhões. O saldo comercial do agronegócio brasileiro nos últimos 12 meses foi de US$ 24,8 bilhões. O Brasil pode assumir em breve o posto de maior exportador mundial de soja e carne bovina, e é o segundo do mundo em exportação de carne de frango.

Não por acaso, a liderança do Brasil nas negociações da OMC, exigindo a liberalização dos mercados agropecuários da América do Norte e União Européia, incomoda os senhores da economia. Na verdade, o que o Primeiro Mundo quer é apenas a abertura unilateral de nossos mercados, exigência com a qual o Brasil não concorda. E é a força do agribusiness que garante ao País o progresso, as condições de liderar as economias em desenvolvimento rumo a uma negociação mais justa com os Estados ricos.

E qual é a relação entre o agribusiness e a reforma agrária? Em primeiro lugar, em um quadro de economia globalizada, e levando-se em conta a complexidade do tecido social e da estrutura fundiária brasileira, seria absurdo defender a hegemonia absoluta de uma forma de produção sobre a outra. Não há sentido em apoiar o fim da grande propriedade – altamente produtiva – em função de um suposto modelo de pequena propriedade. Isso significaria retroagir dois séculos, ao tempo em que se contrapunham o minifúndio e o latifúndio estéril.

Na mão oposta, não se pode deixar de reconhecer o caráter social dos assentamentos da reforma agrária, que podem prover sustento a milhões de famílias. A inclusão consistente dos assentados na cadeia do agronegócio, a partir de uma produção diversificada, gerando renda e trabalho, passa necessariamente pelo cultivo de produtos e pelo desenvolvimento de práticas de alto valor agregado – como a agricultura orgânica, a piscicultura, a fruticultura, a suinocultura, que estenderão muito seus horizontes. As cooperativas agropecuárias já existentes podem auxiliar bastante nesse processo.

Ocorre que, de acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o nível nacional de evasão nos assentamentos de reforma agrária está próximo dos 30%. Uma das razões é evidente: não basta garantir a terra ao agricultor, é preciso abrir linhas de crédito para a compra de insumos e criar estruturas de armazenagem, capacitação, transferência de tecnologia e escolas para seus filhos... E, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, nada menos que 87% dos assentamentos não contam sequer com luz elétrica. Sem condições de progredir, muita gente vai à busca de outras oportunidades, é claro. Isso é humano.

A verdade é que a reforma agrária não pode servir como muleta para o combate ao desemprego urbano. E a criação de empregos, no campo ou na cidade, só pode vir com um novo surto de desenvolvimento econômico. No desespero de ocupar espaço no cenário político brasileiro, a liderança sem-terra abandona velhos princípios e invade terras produtivas. Não é assim que teremos desenvolvimento econômico e inclusão social. O agribusiness tem que ser reconhecido como ponta de lança do desenvolvimento no campo e coexistir com a função social dos assentamentos de uma reforma agrária feita dentro da lei. É preciso que a liderança dos sem-terra reconheça os limites do movimento e admita a necessidade de coexistir com outras formas de organização, no campo e na cidade. Paz e desenvolvimento: é disso que o campo brasileiro precisa.

O autor, Evaristo Camara Machado Netto, é presidente da Organização das Cooperativas do Estado de S. Paulo.

Comentários

Comentários