Uma caixa preta de 16 metros quadrados decorada por 11 fotografias em preto e branco e recheada por outras quatro imagens, que só podem ser vistas, ou melhor, espiadas, por meio de frestas abertas em suas paredes.
Um verdadeiro convite para que o público se torne cúmplice do que acontece dentro e fora do invólucro, a instalação é o ponto alto do projeto “Mulheres de Nelson”, trabalho idealizado pela fotógrafa Joyce Guadagnucci e pela atriz Simone Violanti, que reúne fotografia e experimentação cênica, inspirado na obra de Nelson Rodrigues.
O evento está em exposição, desde ontem, na área de convivência do Serviço Social do Comércio (Sesc), em Bauru. A atividade vai até domingo e tem entrada gratuita.
As fotografias, ampliadas em tamanho 60 por 90 centímetros e fixadas no exterior da caixa, revelam quatro ícones da literatura rodrigueana: Lídia, do texto “A Mulher Sem Pecado”; Sônia, de “Valsa n.º 6”; Ivonete, de “Viúva, Porém Honesta”; e Glorinha, de “Perdoa-me Por Me Traíres”. Todas as cenas são legendadas com o nome da personagem e uma frase pinçada da obra do escritor.
O ensaio traz como modelo a própria atriz, que reforçou em cada imagem as fortes características presentes na figuras femininas da literatura rodrigueana. “A Lídia tem 17 anos, mas é muito amadurecida. Ela é casada com um marido muito ciumento e obcecado com a idéia de que ela vai traí-lo”, conta Joyce.
“A Sônia é uma personagem morta, que vive um espécie de surto psicótico e está em um período de transição entre o lado menina e o de mulher. A Glorinha é uma garota de colégio, que tem bastante malícia”, aponta a fotógrafa.
As imagens tiveram como pano de fundo a década de 50 e os cenário escolhidos foram um cemitério, uma escola e um pesqueiro, lugares que, segundo a fotógrafa, simbolizam o universo do escritor. “O Nelson tem muito desse ambiente ligado à morte. A Ivonete, que é a viúva, foi retratada no Cemitério da Saudade, por exemplo”, diz.
Voyeurismo
O interior da caixa, que tem as paredes ilustradas por fotos das personagens, é o cenário propício para que Simone realize sua experimentação cênica, dando vida às “mulheres de Nelson”. Em uma apresentação de 50 minutos, a atriz troca de figurino e de personalidade, e tudo pode ser atentantamente observado pelas pessoas. Porém, elas só podem ver as performances pelos buracos estrategicamente recortados no invólucro.
“Existem frestas de vários formatos, pequenas, grandes. A imagem é policêmica e produz vários significados, dependendo do repertório de cada um”, revela Joyce, ressaltando que a encenação é dirigida por Fernando Kinas, com assistência e operação de som de Julio Simpson.
O trabalho - que apresenta algumas fotos de mulheres em poses ousadas - pode ser chocante para alguns, mas é visto com bons olhos por outros, como a estudante Tamires Almeida de Souza Cardoso, de 16 anos. “É muito interessante e bonito”, revela ela, que ao lado da amiga Aline Rodrigues, também de 16 anos, estava espiando as fotos da caixa preta.
Joyce explica que o objetivo é mostrar ao público a experiência do fotógrafo, evidenciando o princípio da caixa preta, primeiro dispositivo fotográfico usado para o registro imagens. “É como se a Simone estivesse aprisionada em uma câmera fotográfica. O público pode ter, através dos orifícios, a sensação de fotografar”, analisa.
A idéia de se realizar o projeto nasceu da paixão das duas profissionais pelo trabalho de Nelson Rodrigues. Joyce conta que conheceu Simone há três anos, durante uma oficina sobre o escritor. “Nós estudamos 17 peças que compõem a dramaturgia rodrigueana e depois começamos a fotografar”, lembra Joyce.
Além de simbolizar o modo como cada um pode observar a realidade, a caixa preta faz alusão ao modo como Nelson Rodrigues enxergava suas personagens. Para Joyce, a prática de se espiar pelo buraco da fechadura é uma característica do universo rodrigueano. “O trabalho tem a ver com essa ótica que invade a intimidade e os sentimentos profundos do ser humano”, comenta.
• Serviço
Projeto “Mulheres de Nelson” pode ser apreciado até domingo, no Sesc. A encenação de Simone Violanti será realizada amanhã, às 21h. A entrada é gratuita. Realização: Espaçonautas. Apoio: Prata Cargas, Rita Turini e Nítolo Produções. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.