Cultura

Escritor aborda o engajamento

Da Redação (Com Agência Estado)
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Em uma entrevista que foi publicada no último domingo em diários de diversos países de língua espanhola (de Cuba ao México), o escritor português José Saramago fez questão de garantir que não rompera com Cuba depois que o governo de

Fidel Castro deteve 75 dissidentes. “Continuo amigo dos cubanos, mas me reservo o direito de dizer o que penso e no momento que me for conveniente”, disse Saramago, que veio para o Brasil participar, na segunda-feira, do 1.º Congresso Internacional de Educação, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo.

Anteontem, na Livraria Cultura, ao lado do espanhol Juan Arias, que o entrevistou em 1998, pouco antes do anúncio do Nobel, gerando material para o livro “José Saramago: O Amor Possível” (Manati), o escritor, além do bate-papo, autografou a obra, que ele considera sua autobiografia.

O livro é um precioso documento sobre o pensamento pessimista do escritor que mantém um compromisso intransponível com a literatura. Mas, como bem observa o próprio Arias, depois da longa conversa, não apenas Saramago foi escolhido para o Nobel como o mundo sofreu profundas transformações, desde o atentado contra as torres gêmeas em Nova York até a derrota do talibã no Afeganistão.

O próprio Saramago participou da controvérsia com o governo Fidel Castro. Uma boa solução de preencher a lacuna deixada pelo tempo foi a inclusão de uma pequena e recente entrevista, no fim do volume, na qual Saramago revela suas esperanças no governo Lula.

Na longa conversa com Arias, o escritor português, como de hábito, não escondeu suas críticas à forma com que se desenvolve a sociedade globalizada.

Afirma, por exemplo, que, para a União Européia, tanto faz quem governa um país, se a economia vai bem. “Aonde vamos com a fragmentação de tudo, com a dissolução dos Estados-nação nessa macroorganização?”, questiona. “Ninguém se pergunta e todos seguem a fazê-lo, como se se tratasse de algo necessário e inevitável.”

Mais adiante, Saramago lembra que a União Soviética sucumbiu porque não se pode viver sem ouvir as pessoas. E comenta: “O capitalismo poderia desmoronar como um dia aconteceu com o império romano.”

No livro com a entrevista, há espaço também para assuntos mais idílicos. Saramago lembra, por exemplo, um momento comovente de sua vida quando o avô, antes de morrer, quis despedir-se das árvores de seu quintal, abraçando-as.

Comenta também sobre seu processo de criação - Saramago tem a necessidade de que o que está por escrever possa ser dito. “Se não ouço as palavras dentro da minha cabeça na hora de principiar um livro, se não consigo escutar uma voz a dizer o que vou escrevendo, o livro não sai”, afirma. “Aos leitores que não entendem o que escrevo, digo para ler em voz alta duas ou três páginas até descobrir o ritmo, a música.”

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