Botucatu - Todos os dias, inúmeros ônibus e veículos lotados de pacientes ocupam o estacionamento do hospital-escola da Faculdade de Medicina de Botucatu (100 quilômetros a Sudeste de Bauru). São pessoas que procuram a cura de alguma doença em um hospital especializado em várias patologias, 13 ao todo. Elas chegam de 250 municípios do Estado de São Paulo e de 60 cidades fora dele. Diariamente, cerca de 1.000 pessoas são atendidas no hospital.
Em função da fama de oferecer o que há de melhor para a população que procura o atendimento, o HC sofre com a falta de verbas para arcar com os custos. A verba fixa repassada pelo SUS, estipulada sobre valores de custeio de 2001, não cobre a pauta de serviços oferecidos e mesmo com a suplementação feita pela Unesp, o hospital registra um déficit mensal da ordem de R$ 450 mil, devendo fechar o ano com um passivo de R$ 5,2 milhões.
Além da insuficência de verbas, o HC sofre com a falta de conscientização dos municípios, que todos os dias enviam pacientes, sem se preocupar com os custos do atendimento. A diretora da faculdade, médica Marilza Vieira Cunha Rudge, diz que, se cada município fizesse a tarefa de casa, aliviaria o déficit. “A atenção básica é uma responsabilidade dos municípios. Este é um complicador. Para o município de Botucatu, nós damos atenção básica, que deveria ser feita pela prefeitura. E isso não acontece só com essa cidade. Nós temos os encaminhamentos, mas muita gente chega sem ele e nós não deixamos de atender e isso sobrecarrega”, explica Rudge.
A realização de exames que deveriam ser feitos nos municípios é outro fator que pesa negativamente nos custos do HC. “Como há muitos municípios próximos, os administradores não investem em saúde e mandam para nós. Muitos exames que deveriam ser feitos na rede básica, acabam sendo efetuados aqui.”
No caso dos partos, por exemplo, no HC deveriam ser atendidos só aqueles que envolvem alto risco. “Mas aparecem partos normais. Às vezes, as parturientes chegam com o bebê nascendo e nós fazemos o parto, depois encaminhamos para o Hospital Sorocabana de Botucatu.”
A falta de suplementação de verba poderia comprometer o atendimento. “Porque nós temos um teto, isso quer dizer que temos que fazer uma assistência dentro daquilo que recebemos. Estamos com uma folga porque recebemos um adiantamento desse pagamento.”
As inúmeras prefeituras que mandam pacientes para o HC cooperam com o aporte político, ressalta a médica. “Elas não mandam dinheiro. Os prefeitos e os seus secretários de saúde deveriam participar mais para avançar. É importante a participação dos municípios no sentido de melhorar a política de recursos, interferindo junto ao governo estadual e federal.”
De acordo com a diretora, se mantida a situação que está, o atendimento ficará comprometido. “Estamos conseguindo contornar a situação porque mudou a forma de pagamento que era feita após 45 dias da emissão da fatura e agora é 30 dias. Há uma perspectiva do pagamento do Fidesp, que é um percentual que os hospitais universitários recebem em relação à produção na formação de recursos humanos na área da saúde, da existência da graduação de medicina e enfermagem e pós-graduação.”
O recurso é da ordem de R$ 600 mil por mês. “Há uma perspectiva que isso vai aumentar, assim como de um fundo federal que considera o ensino e a pesquisa. É uma forma de melhorar a dotação ao invés de mexer no teto do SUS.”
Mudança de cenário
A diretora da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Marilza Vieira Cunha Rudge, conta com orgulho que em breve será inaugurado o hospital-dia. “É uma parceria entre a iniciativa privada, Fundação Bons Ares e o serviço público. Com ele, vamos poder dar um atendimento mais digno, mais humano aos pacientes de HIV positivo e às crianças com câncer infantil.”
Com recursos do MacDia Feliz foi possível construir o prédio destinado ao portador de câncer infantil. “Os pacientes poderão ficar lá durante o tratamento ambulatorial.”
Também foram dados os passos iniciais para a construção de um prédio administrativo para a faculdade e que deverá liberar mais 2.500 metros quadrados de área construída para expansão do HC.
Rudge ressalta que a idéia é crescer cada vez mais. “Pretendemos fazer com que a Faculdade de Medicina passe a ser um grande pólo e gerencie um pólo hospitalar. Hoje, temos o HC de Botucatu com 400 leitos, o Hospital Estadual de Bauru com cerca de 180 leitos, o Hospital Sorocabana e o Hospital-dia da Aids.”
O complexo hospitalar, na opinião dela, enriquece a formação de recursos humanos para a área de saúde. “Nós formamos um número muito grande de profissionais, reciclamos esses médicos e enfermeiros. Oferecemos aprimoramento contínuo. Isso está na constituição do SUS.”
Atuação do aluno-médico
A Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu é uma das escolas incluídas no Promed - um programa experimental para reestudar a formação dos profissionais de medicina. Em função disso, foram implantados novos sistemas de atuação dos alunos, desde o primeiro ano, junto às unidades básicas de saúde. “A faculdade quer que o aluno aprenda nos três níveis de atenção: primário (nas unidades básicas), secundário (nos hospitais de menor complexidade) e no terciário (hospitais especializados como o nosso).”
No básico, segundo a diretora, o aluno- médico atua na solução de casos mais simples. “O aluno vai acompanhar a criança desde o nascimento até os 4 anos. Vai conhecer a sua realidade e poderá tornar o atendimento mais real, uma vez que conhece a situação de perto.”
Rudge ressalta que esse profissional vai entender melhor o Sistema Único de Saúde. “Vai aprender quais os medicamentos que podem ser usados. Isso vai humanizar o atendimento”, acredita.
A atualização à distância é outra novidade da faculdade, explica a médica. “O médico está na sua cidade com um caso complicado. Usando uma antena parabólica, ele consegue discutir conosco, on-line. Da mesma forma, nós podemos organizar cursos destinados aos profissionais que estão em várias cidades. Já há vários anos programados.”
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