Bairros

Bairros simbolizam imigração

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Se os descendentes de imigrantes saíssem de Bauru, muito pouco restaria nos bairros da cidade. É o que afirma o historiador Gabriel Pelegrina. “Bauru é uma cidade cosmopolita. Se tirar os descendentes, a cidade acaba. Brasileiro nato mesmo é difícil encontrar”, diz.

“Todos os setores têm representação de imigrantes de todas as colônias. Tem árabes, italianos, espanhóis, japoneses, portugueses”, acrescenta.

O fato é constatado não apenas nos traços e sobrenomes das famílias, mas também em nomes de ruas, praças e bairros do Município. O Núcleo Nobuji Nagasawa, mais conhecido como Bauru 2000, é uma homenagem à comunidade descendente do Japão.

As praças homenageiam várias nacionalidades - Itália, Espanha, Portugal, Líbano. Já as ruas que levam nomes de imigrantes são incontáveis. Antônio Alves, por exemplo, foi um delegado português. Alexandre Nasralla foi imigrante árabe. E assim por diante.

As comunidades mais representativas em Bauru, de acordo com Pelegrina, são a portuguesa, a italiana e a espanhola. “Os portugueses tiveram muitas padarias em Bauru. Eles eram numerosos porque tudo isso aqui já era deles”, observa.

Os italianos destacaram-se em dois ramos na cidade: o de hotelaria e o da construção. “Os hotéis mais antigos de Bauru foram de italianos”, salienta o historiador.

Ele reforça que os italianos, assim como os espanhóis, foram numerosos na cidade. “Se tirar daqui os descendentes dos países, vai sobrar bem pouco.”

Já os árabes vieram para o comércio. A colônia árabe começou a se formar com o surgimento da ferrovia. “A construção da Noroeste admitiu mais de 2 mil empregados. Eles tinham o que comer, vestir etc. Foi quando começaram a se estabelecer na rua Batista”, conta.

Os árabes foram chegando aos poucos e vieram em menor quantidade. A proporção era de 10 italianos ou espanhóis para quatro árabes. “Isso não se discute.”

Para constatar a força da imigração japonesa, basta andar pelas feiras livres dos bairros da cidade. Outra alternativa é a Vila Independência, reduto da comunidade. Eles chegaram em Bauru em 1914 e estabeleceram-se principalmente no ramo da agricultura. “Tinha japoneses que não acabava mais”, ressalta Pelegrina.

Quem pensa que imigração é coisa do passado está enganado. Mais recentemente, até coreanos e chineses estão se estabelecendo em Bauru.

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Espanha

Filho de espanhóis, Pelegrina fala sobre a chegada dos imigrantes a Bauru. Começou em 1892. Inicialmente, eles foram trabalhar em fazendas. Anos depois, com a ocupação das áreas urbanas, os espanhóis estabeleceram-se no Centro e formaram o bairro conhecido hoje como Vila Seabra.

“Lá era um reduto mesmo de espanhóis. Quando eu lembro da Vila Seabra, eu lembro de quantos e quantos espanhóis construíram casas lá. Era difícil ter um quarteirão em que não houvesse um espanhol morando”, afirma.

Os primeiros quarteirões da rua Araújo Leite também eram repletos deles. Hoje, os descendentes espalharam-se pelos bairros. Segundo Pelegrina, a quantidade de membros da comunidade é “incalculável”. “Só na família da tia da minha esposa, da Vila Seabra, há mais de 300 descendentes”, enfatiza.

Em 1915, a comunidade fundou a Sociedade Hispano-Brasileira Miguel de Cervantes, que existe ainda hoje.

Atualmente, os descendentes que vivem em Bauru reúnem-se para comemorações e preservam algumas tradições. Além da culinária, o historiador guarda em casa objetos trazidos da Espanha - por exemplo, a Cruz de Caravaca e o almiré (espécie de pilão de bronze).

“Se colocada de cabeça para baixo num copo d’água, a cruz chama a chuva”, afirma. “Eu fico dia a dia mais orgulhoso por ser descendente de espanhol”, destaca.

História

De acordo com o historiador Gabriel Pelegrina, a imigração espanhola começou em 1892 e durou até o início da década de 20. Ele conta que, na Espanha, as terras eram ruins e os espanhóis não estavam satisfeitos.

Os imigrantes viram no Brasil uma oportunidade de ganhar dinheiro. Eles viajavam quando recebiam a Carta de Chamada. “Era um documento em que as autoridades espanholas os obrigavam a vir para trabalhar. Eles tinham emprego garantido. Se não estivessem satisfeitos, eles poderiam voltar à Espanha”, conta Pelegrina.

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