O mês de outubro registra duas datas comemorativas, altamente significativas pelo seu aspecto humanista: Dia da Criança e Dia do Professor. São datas ligadas ao binômio: professor-aluno. O então Conselho Federal de Educação, em 1962, em parecer expedido referente a reformulação dos currículos dos cursos de Licenciatura das Faculdades de Filosofia, Ciência e Letras, em razão da publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 1961, justifica ressaltando, que a preocupação do CFE com a qualificação dos acadêmicos, em última análise, está voltada para os alunos com quem irão trabalhar os futuros professores, no exercício do magistério.
Essa lembrança do parecer de 1962, do então Conselho Federal de Educação, me veio à mente devido o editorial do jornal “Folha de São Paulo” (20/10, pág. A2), sob o título “Mais professores”, que entendo oportuníssimo comentá-lo. Inicia o editorial perguntando e respondendo: P - O que leva alguém a querer tornar-se professor? R - A resposta evidentemente não está no salário. Informa que de acordo com estudo recém-divulgado pelo Ministério da Educação, docentes que atuam nas quatro primeiras séries do ensino fundamental recebem R$ 462,00. No ensino médio recebem R$ 866,00.
Os vencimentos são irrisórios comparados com outras carreiras de Estado, afirma e exemplifica: um policial civil, por exemplo, que também ganha mal, recebe o dobro de um professor do ensino médio. A coisa fica ainda mais gritante, ressalta, quando se toma o salário médio de um professor de educação infantil (R$ 423,00) e o compara a de um juiz (R$ 8.321,00). Justifica: é claro que juízes são importantíssimos, mas alguém pode afirmar que professores não o são? Será que faz sentido um professor receber quase 20 vezes menos? Além de tudo, 45% dos professores trabalham sem contar com acesso a bibliotecas; 74% estão em estabelecimentos que não possuem salas de informática; e 80% não têm laboratórios de ciências à disposição.
Conclui o editorial afirmando que sejam quais forem as razões que levam alguém a se tornar professor, o fato é que o país tem necessidade deles. E urgente. Já em 2006 será necessário um incremento de 125 mil docentes no ensino médio. Já passa da hora, portanto, de o governo investir seriamente na carreira de professor, tornando-a atraente. A alternativa é perpetuar o subdesenvolvimento, finaliza o editorial. Como se observa, trata-se de um editorial que apresenta não apenas uma análise crítica, mas, sim, um alerta aos governantes, defendendo a dignidade dos professores e sua importância social. Precisamos urgente de centenas, de milhares de manifestações como esse editorial, motivo de focalizá-lo nesta tribuna do leitor.
Rodolpho Pereira Lima - professor aposentado do magistério estadual