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Continuar negociando


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Comentários infelizes de alguns negociadores americanos azedaram as discussões sobre o ingresso do Brasil na Alca, mas nada de substantivo aconteceu realmente capaz de interromper o processo. É uma grande ilusão imaginar que nós podemos ficar de fora desse arranjo como também é evidente que seria uma grande frustração para os Estados Unidos a formação do bloco sem a presença do maior parceiro do continente. Não temos que nos deixar perturbar pela dureza das negociações nem com os escorregões semânticos e sim tratar de defender nossos interesses com o máximo de objetividade. Negociar, negociar e negociar ... é o que temos que fazer.

Não foi isso exatamente o que aconteceu em Cancún, quando não demonstramos uma vontade mais firme de prosseguir na negociação, em que pese a atitude injusta e inamistosa do representante americano, o subsecretário Zoellick. Do lado brasileiro tivemos em seguida o desacerto de posições entre o ministro das relações Exteriores e os ministros da Agricultura e do Desenvolvimento, mas felizmente o Presidente Lula tratou de harmonizar rapidamente as diferenças e botou ordem na casa. Os ministros vão conciliar seus pontos de vista antes de cada nova etapa para que o governo possa transmitir uma única diretriz aos negociadores e assegurar-lhes que têm uma sólida retaguarda.

Por muitas e boas razões, é do interesse brasileiro participar e aproveitar ao máximo as oportunidades dessa parceria comercial das Américas. Nossa presença no comércio exterior ainda é pouco significativa em relação ao tamanho de nosso PIB, algo em torno de 25%, enquanto que nos países em processo de desenvolvimento mais intenso, ela chega a 40% ou 45%. Temos então uma boa diferença a percorrer. As exportações este ano devem crescer 18% a 20% e logo vamos ter um crescimento mais intenso nas importações, com a retomada do processo de desenvolvimento. A continuidade dessa expansão é importante porque se o país tiver que fazer face a alguma crise, se por qualquer motivo piora a avaliação de seu risco nos mercados externos, o esforço exigido para voltar ao equilíbrio é muito maior com uma abertura de apenas 25% do que de 45% em relação ao PIB.

Ficar fora da Alca, por absurdo, reduziria nossas possibilidades de expansão comercial, porque seria construído um cordão sanitário em torno do Brasil e indústrias que hoje têm participação importante no setor exportador migrariam para os países vizinhos integrantes do bloco para poderem continuar suas atividades.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP, e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br.

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