Fazer da rua o seu palco. Essa é a principal característica do rap, do break e do grafite, elementos que marcam o hip hop, movimento cultural que tem como objetivo difundir a educação e a cidadania entre jovens e adolescentes que vivem na periferia.
Criado na década de 70 nos bairros em que se concentrava a maioria negra de Nova York, Estados Unidos, o hip hop chegou ao Brasil nos anos 80 por meio de músicos como Michael Jackson, que fez sucesso dançando break, e - mais tarde - através do rap de nomes como Thaíde, Nélson Triunfo e Racionais MC.
Em Bauru, o movimento - que antigamente contava apenas com expressões isoladas de alguns grupos de rap nos bairros - ganhou força após o surgimento do Núcleo Cultural Quilombo do Interior, uma Organização Não-Governamental (ONG) fundada há dois anos por cerca de 10 voluntários.
Apesar de ser única na cidade - e uma das entidades mais representativas na região - a Quilombo do Interior é uma das associações que mais desenvolve atividades culturais voltadas à população carente. Entre elas, oficinas gratuitas de rap e break realizadas em conjunto com a Secretaria Municipal de Cultura (SMC), além de fóruns e eventos relacionados à difusão do hip hop.
“O trabalho da ONG é usar o hip hop como ferramenta no processo de educação”, destaca o rapper Renato Magu, 22 anos, que é membro do núcleo cultural e coordenador dos cursos de rap no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”.
Segundo ele, a criação de uma entidade estruturada abriu as portas para que o grupo pudesse trabalhar ações culturais e sociais na cidade de forma mais intensa.
“A partir do momento que nos organizamos e colocamos as coisas no papel, as coisas melhoraram”, conta Magu, referindo-se à criação do núcleo, que é filiado ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) e possui um estatuto que garante seu regimento interno.
Uma das principais vantagens da fundação da ONG foi a realização de parcerias com a iniciativa pública e privada da cidade. “Nós temos um trabalho conjunto com a Secretaria de Cultura que fornece, entre outras ações, a estrutura para a realização das oficinas”, diz Magu.
Ele ressalta ainda que o núcleo conta com a colaboração da Oficina Cultural e do Coletivo Samacô, produtora que desenvolveu o CD “Hip Hop Sem Limites”, primeiro disco que reúne grupos de rap ligados à ONG.
“Hoje o Quilombo é um braço do hip hop na cidade”, aponta Magu, destacando que as reuniões, na maioria das vezes realizadas na Praça Rui Barbosa, são abertas para pessoas da comunidade que queiram participar do movimento.
Educação
As oficinas de rap e break, que de acordo com Magu são cada vez mais procuradas, reúnem atualmente cerca de 200 adolescentes de bairros pobres de Bauru.
Realizadas semanalmente no Centro Cultural, as aulas são levadas também à periferia da cidade, reunindo jovens nas bibliotecas ramais da Vila Tecnológica e Mary Dota, Núcleo de Apoio Familiar (NAF) do Jaraguá e no Projeto Crescer da Vila Zilo. “A partir dessa semana, serão oferecidos cursos no Ferradura Mirim”, adianta o rapper.
Utilizando uma linguagem simples e próxima da difícil realidade em que vivem seus alunos, os cursos funcionam como um verdadeiro atrativo para a população carente da cidade. “O rap significa ritmo e poesia”, aponta Magu (iniciais de rythm and poetry, em inglês), justificando a união das fortes letras da música com o som eletrônico produzido por um DJ, elemento que não pode faltar na música do hip hop.
O break, que inicialmente foi criado por grupos americanos para disputar suas diferenças através da dança, atualmente significa uma maneira de manifestação da cultura hip hop por intermédio de gestos e movimentos corporais. “As aulas estimulam a atividade física, uma alimentação saudável e ao não uso de drogas”, comenta Magu.
Para Thiago Cardoso da Silva, 19 anos, além de uma forma de se exercitar, o break exerce uma grande importância em sua vida. “Tenho o apoio da minha mãe e já fiz várias amizades nas oficinas”, detalha o adolescente, que há quatro meses participa das aulas.
Segundo Magu, por enquanto apenas as atividades de break e rap são oferecidos pela ONG, devido ao seus baixos custos. “Uma oficina para DJs ou de grafite é mais cara por causa dos materiais (tintas spray e pick-ups para comportar a aparelhagem de som)”, diz o rapper.
Além do lado cultural, os cursos de hip hop representam um instrumento de educação e socialização para adolescentes carentes de Bauru.
O estudante Saulo Zambonato, 17 anos, que é freqüentador há sete meses das oficinas de break, revela que a dança incentiva os adolescentes a serem responsáveis. “O hip hop é uma cultura bem legal. Ela dá disciplina e nos ajuda a não fazer nada errado”, diz.
Política
Ministradas por Magu e Rafael Gonçalves da Silva, as aulas de rap e break alternam conceitos de música e dança e pontos de discussão política e econômica. “Falamos sobre Alca, FMI e assuntos atuais que estão acontecendo na nossa cidade”, revela Magu.
Segundo o rapper, o objetivo é estimular a consciência do público jovem. “Os cursos não são fábricas de grupos de rap ou de dançarinos de break, nós usamos essas vertentes para despertar a cidadania acima de tudo”, afirma.
Um exemplo são as aulas de rap, onde os participantes têm à disposição revistas e livros, que servem de base para incentivar à leitura e o amplo conhecimento sobre assuntos variados. “Nos EUA, o rap se tornou capitalista. No Brasil, ele não visa lucros, mas tem o intuito de ajudar as pessoas, tirando os jovens das drogas através de mensagens positivas”, observa Magu.
A prática de se incentivar a consciência política se confirma através das edições do Fórum Interiorano de Hip Hop, encontro que tem o Quilombo do Interior como um dos organizadores e que discute assuntos relacionados ao movimento associado às questões políticas, econômicas e sociais.
Na opinião do secretário municipal de Cultura, Sérgio Losnak, o encontro simboliza a preocupação do hip hop em formar cidadãos politizados. “O movimento usa uma linguagem específica para o jovem e proporciona um momento de discussão que fornece uma otimização para que o jovem se torne politizado, não no sentido partidário, mas discutindo a realidade e sua própria identidade”, analisa.
Promovido a cada dois meses em diferentes cidades paulistas, o fórum interiorano - que foi inspirado em um evento realizado em São Paulo - teve Bauru como sede da primeira reunião. Durante o encontro, que ocorreu em maio deste ano no Teatro Municipal e reuniu aproximadamente 200 pessoas, foram estudadas propostas coletivas de produção e divulgação da arte hip hop.
Segundo Magu, a próxima edição está prevista para ser realizada em dezembro, na cidade de Campinas.
Preconceito
Apesar de desempenhar um importante papel na sociedade, incentivando a cidadania através de manifestações artísticas, o movimento hip hop ainda é visto com certas ressalvas por algumas pessoas. “Existe mais discriminação do que atenção”, reclama Magu. Para ele, o preconceito em relação à cultura se deve, em grande parte, pelo errado estereótipo que associa o rap ao crime.
“Ainda não conseguimos tirar aquele estigma de que rap é música de ladrão. Só vamos mudar isso quando a gente provar que o rap é para todos, pobres e ricos”, opina o rapper.
Além dessa barreira, outro fator que dificulta a maior aceitação do movimento na sociedade é a falta de informação.
De acordo com Magu, algumas pessoas acham que o hip hop é representado somente pelo rap, ou confundem a cultura com o grafite. “Elas ainda não têm um conhecimento geral sobre o papel do hip hop, que é movimento cultural e social”, enfatiza.
____________________
Coletânea
Resultado de um trabalho iniciado há quase dois anos pela ONG Quilombo do Interior, o CD “Hip Hop Sem Limites” reúne oito grupos de rap de Bauru: Desacato Verbal e Força Interior, D’Quebra, Antenor Smoke, Órfãos do Sistema, Profetas de Rua, Mente Abissal e JRB, RR 16, e CDR e Os Manos.
Desenvolvido por Fernando TRZ, o álbum - que conta com o apoio da SMC - foi lançado, recentemente, pelo Coletivo Samacô. O repertório apresenta oito músicas (gravadas individualmente por cada grupo), além da abertura, produzida por TRZ em parceria com João Lima, e a última faixa, que traz a participação de todos os rappers.
“É uma batalha de MCs, mas uma batalha construtiva, que soma as idéias”, explica TRZ, referindo-se a 10.ª canção, “Hip Hop Sem Limites”.
Gravadas no estúdio Samacô, as músicas têm como base scratches (sons eletrônicos produzidos com discos de vinil) feitos por 3 DJs, associadas à batidas produzidas pelo computador. A mistura garantiu um efeito que caracteriza o movimento. “O hip hop é uma cultura viva e forte, que tem uma forte ligação com a palavra”, aponta TRZ.
Correntes
As músicas do “Hip Hop Sem Limites” representam as variadas vertentes seguidas pelos rappers. Entre as principais correntes, estão os grupos que seguem a linha política, outros inspirados no estilo das gangues, e até mesmo aqueles conhecidos como animados, que compõem letras de forma mais alegre.
Um exemplo é a faixa “Avenida da Saudade”, de autoria de Antenor Smoke, que faz um crítica social. Ela representa a juventude brasileira pobre e que se perde através do crime e da droga. Mas é tudo de maneira construtiva”, alerta o rapper.
A música “Automática”, que aponta críticas aos maus policiais, e a faixa “Bauru City” - que fala sobre as vilas periféricas da cidade - são outros destaques do disco.
Mas apesar de possuir idéias diferentes, os grupos possuem em comum o sonho de que o hip hop ganhe força no cenário local. “Nós queremos que o trabalho dê certo, para que possamos progredir, fazer o mercado de Bauru crescer com o movimento”, reforça Smoke.
O CD - que está à venda no Centro Cultural e na loja M3, está previsto para ser lançado oficialmente em uma festa agendada para o final do mês em uma danceteria da cidade.