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Barbárie


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“Supondo-se sábios, tornaram-se estultos.” “Supondo-se práticos, tornaram-se bárbaros”, podemos dizer, em contraponto à sentença bíblica.

Ocorre-nos a idéia em face do inacreditável acontecimento que a nação, estarrecida, vivenciou há poucos dias. Referimo-nos à determinação do Ministério da Previdência, que mandou suspender, sumariamente, o pagamento dos benefícios de todos os segurados do INSS maiores - veja-se o absurdo! - de 90 anos de idade. A própria autoridade, criminosamente coatora, alega ser superior a 100 mil o número dos atingidos pela referida brutalidade.

Assim, com incrível insensibilidade, partiu-se do princípio de que seriam todos fraudadores, o que as imagens chocantes da mídia eletrônica prontamente mostraram não corresponder à verdade. A autoridade coatora demonstrou o nível de barbárie em que se encontra ao reeditar, e em governo que se apresenta como humanista, a norma em que Roma decadente autorizava os próprios filhos a lançarem às águas do Tibre, para que se afogassem, os pais, tão logo atingissem os 60 anos de idade. A famosa norma “sexagenarius de pontu”.

Não é por acaso que hoje repete-se, à exaustão, que “a democracia nasceu na Grécia”, e louvam-se apenas os aspectos positivos do Direito romano. É que importa vender às massas aturdidas, enganadas e exploradas, a idéia de que a Idade Média foi uma idade de trevas, da qual ressurgiu a humanidade para a luz com o chamado Renascimento. Fica assim insinuado que o período de tempo em que, com maior vigor, prevaleceram os valores do cristianismo, foi um período abjeto, de ignorância, brutalidade e crueldade.

Ocorre, porém, que não há um único medievalista que respalde semelhante falsificação histórica. É que eles sabem que a idéia de universidade nasceu no medievo; que a Sorbonne, à altura do século XIII, quando Paris tinha população da ordem de 200 mil habitantes, já era freqüentada por cerca de 10 mil integrantes, entre mestres e alunos; que, assim como a Sorbonne, todas as grandes universidades européias, todas, sem exceção, nasceram no medievo. Que foi nele que surgiram Oxford, Heidelberg, Coimbra, Salamanca, Cracóvia, Cambridge. Sabem, também, que do Código da Cavalaria nasceram as lendas mais douradas da nossa adolescência, código em que os armados cavaleiros impunham-se o dever de lutar pelo fraco contra o forte, pela justiça contra a injustiça. Que no medievo viveram Fernando III, o São Fernando do hagiológio católico; Luiz IX, São Luiz, no mesmo hagiológio, o dulcíssimo São Francisco de Assis, para não falar de Petrarca, de Dante Alighieri, de São Tomás de Aquino, o maior filósofo que o Ocidente produziu em todos os tempos. E sabem, também, que a ética do cristianismo da época condenava a atividade econômica tendo como objetivo o lucro pelo lucro, o que era considerado indigno, desonesto e pecaminoso. E aí tem o leitor, inteligente, a razão da monstruosa falsificação histórica com que os novos bárbaros, os homens de “espírito prático”, os adoradores do “Deus” Mercado, mantêm a falsificação histórica a que nos estamos referindo.

Existirão esses novos bárbaros?

O episódio do Ministério da Previdência já nos deu a resposta.

O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC.

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