Lemos por meio do Jornal da Cidade, com preocupação, a notícia de que no Forum Legislativo de Desenvolvimento Econômico Sustentado havia sido elencada a proposta de criação de uma faculdade de medicina em nossa cidade com o objetivo de torná-la um pólo médico de referência nacional. Entendemos que os respeitados cidadãos, os quais de forma despojada e sincera gastaram seu tempo em participar de tão importante iniciativa, não tiveram acesso a estudos sérios a este respeito desenvolvidos pelo Conselho Federal de Medicina, Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, Associação Médica Brasileira e Associação Paulista de Medicina, em que se mostra a progressão desenfreada de faculdades de medicina nestes últimos 10 anos, sempre particulares, sem a menor preocupação com a qualidade do profissional que propõe a formar: verdadeiro comércio de diplomas. Para que os cidadãos de Bauru e os membros deste respeitado Fórum possam ter mais informações quanto a este complexo assunto, passamos a comentar os seguintes dados:
1- O número de escolas médicas no país é de 100, provocando um crescimento da população de profissionais numa razão duas vezes maior que o crescimento populacional do país. A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza um médico para cada mil habitantes; hoje no Estado de São Paulo temos 1 médico para 479 habitantes;
2- Em São Paulo, atualmente, temos 27 escolas médicas, sendo que destas, 6 são públicas e as restantes particulares, com mensalidades que variam de R$ 1.000,00 a R$ 3.000,00. Em contrapartida, oferecem na sua maioria cursos em geral de qualidade questionável, comprovada pelo mau desempenho de seus alunos nos provões do MEC.
3- Nos últimos anos, o custo da atenção à saúde vem aumentando vertiginosamente tanto no SUS quanto no setor privado. Este aumento desproporcional de custos não está relacionado à maior demanda da população por atenção médica, mas ao despreparo com que muitos destes profissionais estão chegando ao mercado, com indicação frequente de exames desnecessários, o que leva a retardos ou a equívocos nos diagnósticos e procedimentos tecnicamente desnecessários, com índices de complicações elevados. Onde há muitos médicos atuando, existe a necessidade de muitos doentes, como as doenças e doentes têm seu crescimento vinculado ao crescimento populacional, logo podemos ver que a pressão criada por uma demanda médica falsa é grande. Não precisamos ser especialistas no assunto para ver que graves consequências poderemos esperar em relação ao atendimento eficiente e seguro da população, exposta cada vez mais a profissionais com formação deficiente;
4- Para corroborar com o que foi dito anteriormente, nos últimos anos o CREMESP tem recebido um número crescente de denúncias contra médicos. Atualmente, este número chega à casa das duas mil denúncias por ano;
5- É de conhecimento da população que os 6 anos regulares da formação médica não têm sido suficientes para preparar um bom profissional, sendo necessário a este ingressar em uma residência médica onde irá aprimorar seus conhecimentos e adquirir formação de especialista. Neste aspecto, temos aqui outro grande problema: o número de formandos no país é muito superior ao número de vagas na residência. Hoje são formados mais de 8.000 médicos por ano, com cerca de 7.000 vagas para residência no país. São Paulo, além dos 2.000 formandos, recebe outros 4.000 de outros Estados, que aqui vêm para aprimoramento e muitos aqui permanecem após os estágios, tornando ainda mais preocupante o crescimento da população de médicos.
Podemos aqui citar outros tantos questionamentos que devam ser levados em consideração como subsídios, num Fórum como o que se realiza servindo como embasamento para optar-se pela prioridade ou não da criação de uma nova faculdade de medicina. Estamos convencidos de que, apesar de não termos uma escola médica, temos a possibilidade de nos tornar uma cidade referência no atendimento à saúde.
Muito já caminhamos neste sentido, temos o Instituto Lauro de Souza Lima e o Centrinho, que vêm se destacando na formação e especialização de profissionais da área de saúde. Destaca-se também a potencialidade do Hospital Estadual, que poderia tornar-se um centro de qualificação e reciclagem de profissionais. Mais importante que criar uma nova escola médica é qualificar estes profissionais que se formam sem condições técnicas para bem exercer a atividade.
O conhecimento humano vem crescendo de forma acelerada em todas as áreas e na ciência médica não é diferente. Se não criarmos centros de reciclagem onde os profissionais da saúde possam integrar-se a projetos de educação continuada e não criamos uma política de formação compatível com as exigências do mercado, certamente não estaremos contribuindo para o bem-estar da população e para um melhor gerenciamento dos parcos recursos hoje destinados à saúde.
Carlos A. Monte Gobbo - diretor Distrital da APM José Henrique de O. Godoy - presidente Regional Bauru da APM