O Hospital de Base (HB) retomou o atendimento aos pacientes da hemodiálise ontem, depois da unidade permanecer 41 dias fechada por conta da contaminação da água. Até amanhã, todos os 103 doentes renais crônicos - que realizaram seu tratamento em hospitais da região enquanto a unidade estava fechada - devem voltar a fazer suas sessões de diálise no local.
A nefrologista Maria Regina Trotta Pinheiro, uma das responsáveis pela hemodiálise, explica que a retomada do atendimento foi gradativa justamente para evitar mais incômodo aos doentes. “Nós iniciamos pelos pacientes que estavam sendo atendidos nas cidades mais distantes. Amanhã (hoje) e quarta-feira, o restante volta para cá também”, afirma. Cerca de 40 diálises foram realizadas ontem.
Os pacientes mostraram-se aliviados com a retomada do atendimento. O advogado João Henrique de Oliveira Júnior comenta que não estava preocupado em voltar a fazer a filtragem do sangue nas máquinas do HB. “A demora (para a reabertura da unidade) é a garantia de que o hospital usou de toda a prudência e cautela para deixar o serviço a contento, dentro das normas que a vigilância exige, sem qualquer problema”, diz.
Oliveira, que vinha realizando sua diálise em São Carlos, confirma que o desconforto com as viagens era o maior incômodo. “A distância da viagem era desconfortável, porque você fica quatro horas em uma máquina e depois ainda tem de voltar mais duas horas de ônibus, já quase de madrugada, era muito difícil. Retornar (ao HB) é bom porque a gente fica na nossa cidade, e pode atender os nossos afazeres particulares, tem tempo”, afirma o paciente.
O serviço foi interrompido no dia 6 de outubro, depois que diversos pacientes queixaram-se de mal-estar, tontura e calafrios durante as sessões de diálise. Análises da água utilizada no tratamento indicaram a presença de endotoxinas bacterianas na tubulação, provavelmente surgidas em pontos em que a água permanecia parada. Toda a tubulação de água da unidade foi trocada, assim como filtros e peças das máquinas de diálise.
Segundo Pinheiro, todos os testes realizados na água desde então vem apresentando resultados negativos quanto a presença de bactérias ou impurezas. “A água está totalmente dentro dos padrões aceitáveis. Temos cinco laudos confirmando isto”, declara.
O HB aguardou a autorização dos centros de Vigilância Sanitária e Epidemiológica, órgãos da Secretaria de Estado da Saúde, para reabrir o serviço. A Diretoria Regional de Saúde (DIR-10) autorizou a retomada do atendimento apenas na última quinta-feira.
Os técnicos das vigilâncias Sanitária e Epidemiológica que visitaram o HB na semana passada apontaram também a necessidade da revisão de normas e procedimentos de segurança adotados no setor da hemodiálise. De acordo com Pinheiro, a unidade vai passar por uma normatização de conduta, visando promover educação continuada dos funcionários e detalhar os procedimentos necessários para o atendimento.
“O Ministério da Saúde exige a normatização da conduta, com tudo detalhado passo a passo. Isto deve melhorar o atendimento aos pacientes”, diz a responsável pela unidade.
A Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec) foi procurada para comentar a retomada do atendimento no HB, mas nenhum representante foi encontrado.
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Investigação
Há duas semanas, o delegado titular do 3º Distrito Policial, Marcelo Haddad, instaurou inquérito para investigar as mortes de quatro pacientes da unidade de hemodiálise do HB, registradas desde o final de setembro, quando começaram as suspeitas de contaminação da água. Ele comenta que já ouviu as famílias e continua aguardando as fichas clínicas dos pacientes. “Precisamos das fichas para confrontar as informações e saber se a confirmação da água tem algo a ver ou não com os óbitos dos mesmos”, afirma.
Foram constatadas as mortes de João Lopes Sanches, 68 anos, vítima de infecção; Archimedes Marins Machado, 75 anos, devido a insuficiência cardiorespiratória e renal crônica; e Cristiane Regina da Cruz, por conta de um edema no pulmão. Uma outra família também procurou o delegado do 3º DP para informar sobre a morte de um paciente, porém o nome não foi divulgado. Um quinto paciente morreu no final de setembro, mas a direção da unidade afirma que esta morte não está relacionada com a contaminação da água.
A nefrologista Maria Regina declara que não há nenhuma comprovação de que algum paciente tenha sido contaminado. “O renal crônico é mais suscetível a infeccções, derrame cerebral, crise hiperativa. A taxa de mortalidade é de 14% e estamos dentro dessa estatística”, diz.