A história da cidade de Piratininga (13 quilômetros a Sudoeste de Bauru) poderia ter sido outra se o Cine Omar não tivesse encerrado as suas atividades. Isto porque, nas décadas de 60 e 70, ele era o foco de desenvolvimento do município. Pessoas de todo o Estado de São Paulo se deslocavam para lá a fim de assistir os lançamentos da indústria cinematográfica. A lotação máxima, as 650 poltronas, estiveram ocupadas várias vezes, especialmente em filmes de sucesso como “Ben-Hur”, “Os 10 Mandamentos” e “O Exorcista”. Nos dias de exibição desses filmes, os comerciantes da cidade faturavam com a presença de turistas.
O Cine Omar foi fundado em 1959 pelos irmãos Michel e Anuar Farha, dois apaixonados pela Sétima Arte. Com equipamentos de última geração, o cinema conseguia exibir, quase que simultâneo com a Capital, os filmes de sucesso. “Era uma das poucas salas de exibição que possuía um projetor ponta de linha. Nem Bauru tinha uma sala de exibição como do Cine Omar”, relembra com saudade o filho de Michel, Ricardo Farha.
Para o herdeiro, o fracasso do cinema na cidade começou junto com o namoro no interior dos veículos. “Antigamente, poucas pessoas tinham um carro e iam ao cinema para assistir o filme e namorar. Muitos casamentos que perduram até hoje tiveram início nas salas de exibição de filmes”, conta.
O escurinho do cinema, descrito por Rita Lee e Roberto de Carvalho na música “Final Feliz” na década de 80, retrata bem o que acontecia no auge do Cine Omar. A bomboniere montada com produtos que só eram vendidos nas grandes cidades acompanhava o sucesso do cinema, ressalta Farha.
Para ele, quem gosta de filmes vai ao cinema. “Tem outro clima. É diferente de assistir em casa. Tem todo um contexto nas salas de exibição. Naquela época, poucas pessoas possuíam televisão. Os videocassetes e DVDs nem existiam.”
O som do Cine Omar era algo de extraordinário para a década, frisa o herdeiro. “O som era estéreo, coisa rara na época. Antes do início do filme, as músicas que faziam sucesso nas rádios eram executadas por uma rádio vitrola. Na tela, dois comerciais: um deles era um desfile de modas da Capristor de Bauru e outro de um comerciante de Piratininga.”
A iluminação do cinema foi escolhida com esmero, lembra Farha. “Os lustres e a iluminação chamavam a atenção de todos. Os sofás no hall de entrada eram de muito bom gosto.”
O primeiro filme a ser exibido, diz ele, foi “O rei e Eu”, que ele não lembra o autor. “Nos filmes do Mazzaropi, os ingressos eram vendidos antecipadamente, Houve um filme dele, que não lembro o nome, que tivemos que fazer cinco exibições. Em todas elas, houve lotação máxima.”
O clássico “Os 10 Mandamentos” foi exibido durante 40 dias em duas sessões diárias com lotação máxima. “Era muito concorrido, assim como ‘O Exorcista’, que ficou em cartaz mais de 30 dias, com duas sessões. Em Bauru, este filme não chegou a ser exibido. Em Piratininga chegavam carros de todo o Estado. Vinha gente da região de Campinas, Botucatu, Marília, Jaú, etc.”
Decadência
A queda da freqüência no Cine Omar começou no final da década de 70. A expansão da televisão, do comércio de veículos e a obrigatoriedade da exibição de filmes nacionais foram alguns dos fatores que afugentaram os freqüentadores, alega Farha.
Ele lembra que, no final da década de 70, a freqüência já era baixa nas salas de exibição motivadas pela televisão e pela facilidade de namorar em carros. “Foi quando surgiu a obrigatoriedade de exibir os filmes nacionais. Nessa época, o Cine Omar funcionava só nos finais de semana. Com a obrigatoriedade, passamos a exibir quase que só filmes nacionais que, naquele período, eram de péssima qualidade.”
Neste ritmo decadente, o Cine Omar fechou as portas. “Tentamos abrir mais uma vez, depois de um período que ele ficou fechado. Mas não deu certo. Alugamos o imóvel para uma igreja evangélica. Atualmente, o prédio está desocupado.”
A velha vitrola com o disco compacto de vinil ainda está na sala de projeção. Os projetores Phillips “calados” na sala refletem a época de ouro do cinema de Piratininga. Os lustres continuam pendurados e o velho sofá empoeirado guarda segredo dos namoradinhos da época.
Para o futuro, o herdeiro do Cine Omar sonha transformar o local em um teatro. “O palco é muito bom, tem banheiros e camarins. Eu acredito que poderia ser usado como teatro.”
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Cartão de visitas
Para o taxista Roberto Swenson, 70 anos, o Cine Omar foi, durante muito tempo, o cartão de visitas de Piratininga. “Nos tempos de ouro, a cidade ficava cheia de turistas em função do cinema. Eu mesmo namorei minha mulher lá.”
Ele acha que o imóvel é um patrimônio histórico e deveria ser preservado. “É uma pena ver um patrimônio desse parado.”
Seu colega de trabalho, o taxista José Martins, diz que freqüentou muito o cinema quando seus filhos eram pequenos. “Eu levava as crianças para ver o Mazzaropi.”
Ele acredita que se o cinema estivesse em atividade, o comércio local seria incrementado. “Claro que ele precisa de atualização, mas sem dúvida que ele motivava o comércio.”
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Sonho
Funcionário por 10 anos do Cine Omar, o despachante Paulo Roberto Alvares não esquece os áureos tempos do cinema na cidade de Piratininga. “Sou um apaixonado por cinema. Se eu pudesse, abriria o Cine Omar novamente. Em 78, tentamos reabri-lo, mas não deu certo”, relembra com tristeza.
Falar do Cine Omar para o despachante é voltar no tempo e relembrar com saudade de uma época em que os amantes da Sétima Arte tinham a oportunidade de assistir os lançamentos. “Piratininga foi a pioneira no som estéreo em cinema. Com 650 lugares, o cine era um dos maiores do Interior paulista.”
Na memória dele, o filme “Jeca e seu filho preto”, do Mazzaropi, e “Ben-Hur” foram os de maior sucesso. “Era emocionante ver o Cine Omar lotado. No intervalo do filme Bem-Hur, o bar Cinelândia faturava alto. As pessoas que vinham de outra cidade, aproveitavam os 15 minutos para comer um lanche.”
Atraídos pelos filmes em cartaz, os turistas movimentavam o comércio local, frisa o despachante. “No cinema só tinha bomboniere. Os turistas compravam tudo do lado de fora. Aqueles que vinham mais cedo, chegavam a jantar na cidade.”
A comunidade nipônica tinha presença garantida no cinema, lembra o antigo operador de filmes. “Toda quarta-feira exibíamos dois filmes orientais. Famílias inteiras vinham assistir.”