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EUA e os desafios do novo século


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Já não é mais nenhum segredo o fato de que muitos analistas políticos possuem uma impressionante ignorância macro-econômica.

Este fenômeno, chamado pelo economista Maurice Dobb de “analfabetismo econômico”, se apresenta hoje ainda mais acentuado sob o modismo de análises “sócio-culturais” que prometem esgotar qualquer tema sem pronunciar uma palavra a respeito de qualquer aspecto econômico, como se fosse possível divorciar a economia da sociedade, da cultura e da política.

Assim sendo, não é com surpresa que se observa o fato de que grande parte dos analistas políticos parece ignorar as profundas mudanças estruturais da economia americana durante o século XX e mais precisamente na sua última década.

Os EUA hoje é dez vezes maior que no pós-guerra e na década de 90 o seu PIB passou de pouco menos de 6 trilhões para mais de 9 trilhões.

Além disso, nas últimas décadas os EUA se tornaram uma economia e uma sociedade diferentes. Passaram de uma sociedade industrial para uma plena sociedade de serviços.

Um quadro de dependência de recursos, mercado e captação em uma economia setorialmente focada é uma mistura mais que explosiva para qualquer país. Dada a dependência global em relação aos EUA, conclui-se que caminhamos para uma recessão global em um quadro de depressão.

Diante do inverno que se aproxima, os EUA necessitam manter as conseqüências dessa eminente crise da forma mais indolor possível.

Para isso, necessita resolver uma equação bem complicada: ampliar ao máximo todos os seus mercados, o que só pode ser feito derrubando as últimas barreiras alfandegárias do Planeta (a Alca aqui seria a saída para destruir o Mercosul e - por que não - minar e enfraquecer a União Européia), manter uma presença forte em países que possuem recursos vitais a sua economia (Iraque e o seu petróleo já são um grande passo nessa direção) e, enfim, manter a estabilidade política (mesmo que para isso tenha que intervir militarmente) em todos os países onde seus interesses estejam representados via multinacionais e/ou capital financeiro.

O resultado dessa equação até o presente tem sido um mundo que caminha para o colapso social, o fim das indústrias nacionais, a crise do direito internacional e de quase todos os avanços sociais do século XX, como direitos humanos e os tratados de não proliferação de armas químicas e biológicas.

As bombas que a América joga em civis inocentes não são meras bombas de arrogância e maldade, mas um grito de desespero de um império dependente de uma conjuntura econômica externa de crescimento que se esgota a cada dia e de uma estrutura interna forte que se perdeu na década de 90.

Assim, as luzes do planeta pouco a pouco vão se apagando e a escuridão já parece tomar quase todos os espaços. Entender um pouco as razões disso pode ser apenas uma vela, mas é sempre melhor ascender uma vela do que praguejar contra a escuridão.

O autor, Carlos D’Incao, é professor e historiador especializado em economia. Ex-analista de mercado da ING-Barings Tokyo Securities.

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