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A Alca e os velhinhos


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Nestes últimos dias, a mídia fartou-se de falar da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), idéia lançada em 1994 pelo então presidente americano Bill Clinton, na cidade de Miami (EUA). Ela soma-se ao Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), que envolve os EUA, Canadá e México, como resposta à unidade européia expressa no Mercado Comum Europeu e consolidada pela moeda única, o Euro. A Alca não é, como parece a primeira vista, um simples acordo de negócios de exportação e importação livres de barreiras tarifárias. A equação que a abraça é mais complexa, na medida que é parte da estratégia de potência hegemônica que os americanos pretendem manter por muito tempo.

Há dois anos, Hollywood quase premiou com um Oscar o trabalho do ator Russel Crowe, no filme “Uma mente brilhante”. Crowe interpretou o matemático americano John F. Nash Jr. que, embora portador de esquizofrenia, elaborou uma teoria demonstrando a diferença entre jogos cooperativos e não-cooperativos. A história real aconteceu na década de 50 e seus estudos envolvendo a lógica estatística na escolha de estratégias, base da teoria dos jogos, só obteve reconhecimento inconteste no mundo científico em 1994, quando foi premiado com o Nobel de Economia, 40 anos após a publicação de seu trabalho.

A proposta de formação da Alca leva em conta essa teoria que, por sinal, é muito difundida entre diplomatas e generais. O secretário do Comércio Exterior dos EUA, Robert Zoellick, vive rosnando ameaças ao Brasil. Isso faz parte do jogo, afinal, os negócios entre países não são relações entre associações de benemerência social. Nesse jogo, quem pode mais chora menos. O PIB americano é de US$ 10 trilhões/ano enquanto o brasileiro é 20 vezes menor, mal chega aos US$ 500 bilhões/ano. De tudo que se exporta e importa no mundo, a participação dos EUA é acima de 30%, a participação do Brasil é de 0.89%. É uma luta bíblica, David contra Golias.

O México, com economia semelhante a do Brasil, reuniu durante três anos uma equipe de especialistas (quase todos com Ph.D.), divididos em vários grupos, com a tarefa de criar engrenagens que pudessem defender os interesses do país no Nafta. Não se tem notícia que o Brasil tenha feito algo parecido. Em que pese sua boa atuação no campo diplomático, o País vai necessitar construir dispositivos para os prós e os contras de um acordo desse porte.

A Alca virá de qualquer jeito, ela é fundamental para os EUA no jogo de poder mundial e eles não abrirão mão dessa peça importante do xadrez geopolítico mundial. Para nós, brasileiros, antes da Alca é preciso consolidar o Mercosul, ampliar nossas relações com o Mercado Comum Europeu, firmar acordos bilaterais estáveis com a China, Japão, Rússia, Índia, África do Sul e outros países cujos interesses recíprocos reforçam nossa soberania. É fundamental que o Brasil, ao acertar sua participação na Alca, o faça de forma consciente e estruturada, não importando quanto tempo leve para tal. O Brasil certamente usará nosso potencial e condição geopolítica, pontos importantes nas equações do professor Nash Jr., para negociar. Negociar é a palavra, e negociar sem pressa é a estratégia.

E os velhinhos, o que tem a ver com isso? Tanto quanto nós, apenas com a agravante de que a postura nazista de Mr. Zoellick com relação ao Brasil lembrou a do ministro Berzoíni com relação aos velhinhos. Quase foram pendurados no “pau-de-arara” para que confessassem se estavam vivos ou mortos. Valha-me Deus!

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura do Estado de São Paulo e ex-prefeito de Bauru.

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