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Como sair do vespeiro?


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É extraordinário comprovar que em política a mentira não recompensa seu autor e como, cedo ou tarde, acaba voltando-se contra os que a inventaram e propalaram. Disto a história nos mostra inúmeros exemplos. Era impossível imaginar, quando a ameaça bélica começou a pesar no mundo, que o que estava por trás do embuste (o petróleo) iria impor-se rapidamente na consciência de todos como a razão essencial do conflito. A Cúpula dos Açores, que imprudentemente alguns exaltaram em oposição à "Velha Europa", em poucos meses passou à história como a Cúpula da Mentira. Os pretextos invocados para justificar a guerra se revelaram inquestionavelmente falsos. A mentira agora persegue seus autores, o mais alto nível de responsabilidade (Bush e Blair) e os que neles acreditaram (ou fingiram acreditar): Aznar, Berlusconi e Durão Barroso. Os primeiros contemplam uma acentuada quedade sua popularidade e os segundos estão em situação cada vez mais desconfortável, sobretudo de uma perspectiva européia, onde aproximam-se negociações decisivas.

A insensatez e a improvisação da estratégia norte-americana no Iraque - e no Oriente Médio em geral - está à vista de todos. Agora a pergunta é como - e quando - sair do vespeiro iraquiano onde todos os dias morrem norte-americanos e aqueles que para lá foram sob o pretexto mentiroso de evitar uma iminente ameaça terrorista, de instalar a democracia ou de combater o terrorismo Bush viu-se obrigado a pedir o apoio das Nações Unidas e a abandonar, pelo menos temporariamente, o unilateralismo. Uma espantosa grosseria política!

Em recente artigo, o ex-titular do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos e respeitado especialista político, Zbigniew Bzrezinski, relatou o ocorrido com o então Secretário de Estado Dean Acheson, enviado pelo presidente Kennedy à França para pedir a De Gaulle seu apoio por ocasião da gravíssima crise dos mísseis em Cuba. Quando Acheson se preparava para mostrar as provas fotográficas da existência dos mísseis, De Gaulle, fiel ao seu estilo, lhe disse: "Não desejo ver as fotos. Me basta a palavra do presidente dos EUA". A seguir, Bzrezinski faz uma pergunta terrivelmente pertinente: haverá hoje em dia um líder mundial que reaja do mesmo modo diante de um emissário do atual presidente dos EUA? É óbvio que não.

Este é o problema da credibilidade perdida, que é tão difícil de recuperar, enquanto as circunstâncias não mudarem. E por estranho que possa parecer - e o é - tudo depende das próximas eleições norte-americanas. Que peso terá na opinião pública norte-americana a consciência de que Bush mentiu aos seus compatriotas para conseguir a aprovação da guerra contra o Iraque? Outro dos fatores mais condicionantes em relação às próximas eleições presidenciais, que acontecerão em novembro de 2004, é o financiamento da campanha. Bush já conseguiu US$ 175 milhões, o que lhe dá uma cômoda situação diante dos apenas US$ 25 milhões de seu adversário democrata Howard Dean. Mas, será suficiente? Talvez o dinheiro não seja tudo, nem mesmo na grande democracia norte-americana, que se assemelha cada vez mais a uma oligarquia plutocrática.

O autor, Mario Soares, foi presidente de Portugal.

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