Jaú - As indústrias do setor calçadista e os curtumes da região podem ter encontrado uma boa solução para as toneladas de sobras de couro produzidas diariamente: a reciclagem. Além de sua importância no aspecto ecológico, o reaproveitamento dos resíduos torna a produção do couro mais barata.
A novidade, pelos menos para as indústrias da região, foi apresentada anteontem durante o 1.º Simpósio de Gestão Ambiental, em Jaú (47 quilômetros a Leste de Bauru), pela pesquisadora Joana D’Arc Felix de Sousa, 28 anos, de Franca.
O evento foi realizado na Faculdade de Tecnologia (Fatec) e contou com a presença de empresários, ambientalistas e autoridades do poder público, entre outros interessados.
Segundo a pesquisadora, a economia dos curtumes com a reciclagem gira em torno de 25% a 30% na aquisição dos produtos químicos. Além de ser mais econômico, o produto reciclado dá mais qualidade ao couro. Essa afirmação, segundo a pesquisadora, foi feita por empresários de Franca, outro importante pólo calçadista do Estado, onde a reciclagem já vem sendo feita há algum tempo.
Enquanto o valor de mercado do cromo (produto usado no processamento do couro) gira em torno de R$ 2,00 o quilo, o mesmo material, reciclado, sai por apenas R$ 0,65.
Além do cromo, é possível extrair também o colágeno dos restos de couro, que normalmente são depositados em lixões a céu aberto.
A separação, segundo afirmou a pesquisadora, é um processo simples e barato, que não necessita de equipamentos sofisticados.
O cromo geralmente é utilizado no curtimento do couro. É com o uso dessa substância que uma pele animal passa do estado putrecível para o imputrecível, podendo, assim, ser manufaturado pela indústria. O material pode ser usado também na cromagem de metais, no setor automobilístico.
Já o colágeno pode ser usado tanto pelo curtume, em forma de produtos químicos, quanto pelas empresas de cosméticos, fertilizantes ou rações animais, por exemplo.
Antes de extrair o cromo e o colágeno, entretanto, é feita a separação dos corantes e de outros produtos que deixam o couro macio.
A separação é feita de forma individualizada, por enzimas específicas para cada processo e desenvolvidas pela própria pesquisadora.
Do todo o trabalho de reciclagem, sobra apenas um resíduo líquido, que também é reaproveitado.
O projeto foi desenvolvido por Joana D’Arc no curso de pós-doutorado, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, há cerca de dois anos.
Em maio do ano passado, o trabalho foi considerado um dos mais inovadores em um evento organizado pela Intel, também nos Estados Unidos.
Foram apresentados cerca de 8.500 trabalhos do mundo todo. Eles foram divididos em suas áreas específicas e a reciclagem da sobra de couro foi premiada como o melhor projeto em sua categoria.
Atrás dele ficaram um projeto japonês, de aperfeiçoamento de um chip para computador; um holandês, que cria prótese à base de plástico e diamante; um alemão, que desenvolveu uma vacina para combater leucemia; e um americano, que apresentou estudos (ainda não concluídos) sobre uma vacina que age contra o vírus da aids.
Na prática
A reciclagem já foi colocada em prática em Franca. Diariamente, as 400 fábricas de calçados que existem na cidade, aproximadamente, produzem de 70 a 100 toneladas de sobras de couro. Já nos curtumes da cidade a produção de resíduos está em torno de 30 toneladas por dia.
Para implantar a reciclagem em Jaú, o custo aproximado seria de R$ 150 mil. Embora ainda não haja nada de concreto nessa iniciativa, o Sindicato da Indústria de Calçados (Sindicalçados), organizador do simpósio, é um dos setores mais entusiasmados com a idéia.
A iniciativa não só reduziria custo com a produção como, finalmente, daria um destino apropriado para as sobras de couro geradas na cidade.
Atualmente, segundo informou Nilson José Celebrone, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento, a indústria calçadista jauense produz cerca de 7 toneladas de resíduos por dia.
Todo material é recolhido e depositado em um lixão, sem nenhuma espécie de tratamento. A atitude tem recebido seguidas críticas de ambientalistas e também do Ministério Público.
Além de Jaú, a cidade de Bocaina também poderá ser beneficiada com a implantação da reciclagem do couro. Atualmente, os curtumes da cidade encontram dificuldade para se desfazer dos resíduos. Algumas pequenas empresas não têm dinheiro para enviar o material para Paulínia, onde é incinerado, e, por isso, acabam depositando o produto, a exemplo de Jaú, em terrenos a céu aberto, de forma irregular.