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Cetesb e médico divergem sobre os riscos à população

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Os riscos provocados à população decorrentes da contaminação constatada nas três novas áreas incluídas no mais recente relatório da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) são díspares. Enquanto a companhia garante que problemas são restritos e que não atingem os moradores da redondeza, o toxologista e especialista na área Igor Vassilieff diz o contrário.

O médico é professor titular aposentado da Faculdade de Medicina de Botucatu e atualmente trabalha no restabelecimento da saúde de 300 pessoas que foram contaminadas por produtos agrotóxicos e metais tóxicos no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia (Interior de São Paulo).

De acordo com o Vassilieff, os hidrocarbonetos derivados do petróleo, como tolueno, xileno, naftaleno, PAH e BTX são voláteis e podem ser inalados pelos moradores das imediações das empresas.

Duas das três novas contaminações confirmadas pela Cetesb foram constatadas em locais de depósito de combustível - um imóvel na quadra 9 da rua Aparecida, no Jardim Santana, onde funcionava o escritório regional da Texaco do Brasil, e no depósito de combustível da Cia. Brasileira de Petróleo Ipiranga, na quadra 29 da avenida Rodrigues Alves. A fábrica da Acumuladores Ajax Ltda do Distrito Industrial 1 é o terceiro novo registro.

“Os tanques não são completamente herméticos e as pessoas podem ser contaminadas pelo ar ou através de vazamento, que pode atingir o lençol freático”, explica o especialista.

Embora a Cetesb já confirme a contaminação do lençol de água subterrânea, a companhia alega que as regiões afetadas são restritas e que a água poluída não é consumida pela população das imediações. A informação foi confirmada pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE).

Por essa razão, informa o diretor da Agência Ambiental de Bauru, Rogério Chini, a interdição dos três locais está descartada momentaneamente.

“Por enquanto não há motivo para interdição. A água servida nessas regiões é abastecida pelo sistema público. Além disso, o solo contaminado é restrito à área das empresas”, reitera.

Mas se o médico estiver com a razão, as pessoas contaminadas podem sofrer alteração do sistema nervoso e apresentar sintomas como sonolência, mal-estar, cansaço e fraqueza.

“(Os hidrocarbonetos) são transformados no fígado. Eles exigem que o fígado trabalhe mais, além de agredir as células hepáticas. Pode provocar coágulos”, explica Vassilieff.

Segundo ele, algumas dessas substâncias são encontradas no benzeno e provocam câncer. Porém, a manifestação da doença e dos sintomas depende depende da sensibilidade do indivíduo.

Na opinião de Vassilieff, além da contaminação ser estancada, o ideal é que a população seja retirada das proximidades das três novas áreas afetadas e que se submetam a um tratamento que garanta a proteção do fígado.

Ainda de acordo com ele, essas substâncias são irritantes para o pulmão e podem provocar dificuldades respiratórias (as chamadas alergias químicas), além de rinite. “Esses produtos têm cheiro. Se a população perceber (o odor), tem que chamar a Cetesb para que sejam tomadas as medidas necessárias”, alerta o especialista.

Opinião

Siegelinda Freitas Cristianini, que mora próximo da Cia. Brasileira de Petróleo Ipiranga, garante que sempre sentiu cheiro forte de gasolina, nos 20 anos que viveu no local.

“As vezes até parece que a gasolina está dentro de casa. Antigamente era pior. Já me acostumei”, conta. Há pouco mais de um ano, ela perdeu o marido, que não era fumante, vítima de câncer no pulmão.

Apesar da classificação como área contaminada, ela considera o local, onde criou seus oito filhos, seguro. Diz que recebe água pelo sistema público e que dispõe de filtro. A moradora antiga desconhece residências na região que tenham poços profundos.

A mesma informação prestou Odila da Silva Gamas, vizinha da Texaco do Brasil. “A Cetesb diz que a população não está sujeita à contaminação, mas será que é realmente verdade ou eles estão tentando evitar pânico generalizado?”, questiona um trabalhador, que preferiu não ser identificado e exerce a atividade profissional nas imediações da fábrica Acumulares Ajax, no Distrito Industrial 1.

Já Eunice Gonçalves de Oliveira, moradora do Jardim Tangarás, critica a lentidão dos processo de descontaminação da área realizada até agora. Na opinião dela, o trabalho deveria ser mais ágil e a Ajax deveria receber punição exemplar.

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