Quatro áreas na zona urbana de Bauru estão contaminadas por chumbo ou resíduos de petróleo que podem representar riscos ao meio ambiente e à população e que precisam ser recuperadas, revela relatório que está disponível para consulta pública na home page da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) www.cetesb.sp.gov.br.
Além do setor metalúrgico da Ajax, que fica ao lado do Jardim Tangarás e está interditado desde o início do ano passado, a Cetesb classifica como área contaminada em Bauru a fábrica da empresa do Distrito Industrial 1, um imóvel na quadra 9 da rua Aparecida, no Jardim Santana, onde funcionava o escritório regional da Texaco do Brasil, e o depósito de combustível da Companhia Brasileira de Petróleo Ipiranga, na quadra 29 da avenida Rodrigues Alves.
As empresas da Ajax, que fabricam baterias, estão contaminadas por chumbo, metal cuja alta concentração no organismo pode causar saturnismo (doença que pode provocar até dano cerebral). A direção da empresa informa que já resolveu o problema na fábrica do DI e está tomando medidas para a recuperação da área contaminada no setor metalúrgico.
Já a área que pertencia a Texaco, está contaminada por hidrocarbonetos, produtos que podem causar a degeneração das células do corpo. Domingos Milioni, gerente de segurança e meio ambiente da Texaco, afirma que a empresa tomou conhecimento do problema através do relatório da Cetesb e já apresentou proposta para recuperar a área, que há anos não é mais usada.
Segundo Milioni, a contaminação da terra e da água subterrânea verificada na área não representa risco à população. “É muita água para um pouquinho de hidrocarboneto. Isso ocorreu onde era o antigo desvio ferroviário, onde os trens paravam para descarregar”, diz. A contaminação, de acordo com ele, ocorreu por questões operacionais.
Na área onde está instalada a Ipiranga foram encontrados, além de chumbo, BTX e naftaleno - os dois últimos elementos são derivados de petróleo e também contaminantes. O JC procurou a direção da empresa para comentar o assunto, mas a Ipiranga preferiu não se manifestar-se.
Em todo o Estado de São Paulo, de acordo com o relatório, 727 áreas estão contaminadas. Rogério Chini, diretor da Agência Ambiental Bauru da Cetesb, diz que o órgão já exigiu a recuperação das áreas e que as empresas foram multadas - em quase R$ 6 mil.
Para o biólogo Ivan Alexandre Ferrazoli de Marche, secretário-executivo do Instituto Ambiental Vidágua, o número de áreas contaminadas na cidade pode ser bem maior. “Acreditamos que esse relatório inclua apenas 40% das áreas contaminadas no Estado porque falta fiscalização. No município de Carioba, por exemplo, a Cetesb aponta duas áreas contaminadas, mas um Relatório de Impacto Ambiental (Rima) feito na cidade classificou 15 áreas como contaminadas”, relata.
Para o ambientalista, as áreas de Bauru contaminadas representam risco à população. “No caso das duas empresas de petróleo (Texaco e Ipiranga), os hidrocarbonetos podem atingir o lençol freático e, por conseqüência, os poços profundos do DAE (Departamento de Água e Esgoto) que abastecem a cidade”, analisa.
A assessoria de imprensa do DAE, no entanto, descarta a possibilidade de a água distribuída na cidade estar contaminada. “São feitos testes da água dos poços a cada três meses, de acordo com a portaria do Ministério da Saúde, e não detectamos contaminação”, diz Sandra Faria, assessora de imprensa da autarquia. Ela ressalta, ainda, que o DAE não tem poços profundos próximo às duas áreas.
Ivan de Marche conta que o Vidágua está estudando qual medida vai tomar referente às áreas contaminadas em Bauru, para exigir que sejam recuperadas. “Estamos avaliando se vamos propor uma ação judicial contra as empresas ou administrativa contra a Cetesb, que é a responsável pela fiscalização, o que evitaria que isso ocorresse. Entendemos que isso ocorreu porque houve negligência”, completa.
Recuperar
A Cia Brasileira de Petróleo Ipiranga e a Texaco do Brasil S/A já entregaram à Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) documentos que atestam a contaminação das respectivas áreas e que propõem a recuperação dos locais afetados. O material está sendo analisado pelo Setor de Áreas Contaminadas do órgão, em São Paulo, conforme atesta a própria companhia.
Somente após a análise técnica é que o cronograma de recuperação será definido, informa o diretor da Agência Ambiental Bauru da Cetesb, Rogério Chini.
Ele também explica que essas duas empresas foram instaladas em Bauru antes de 1976, período em que o licenciamento ambiental não era exigido.
Ainda segundo Chini, há algum tempo atrás, a prática adotada internacionalmente entre os postos era enterrar no solo os resíduos do petróleo (borra) lançados após a lavagem dos tanques. A contaminação decorrente dessa iniciativa foi descoberta posteriormente.
A Ipiranga já começou a retirar as borras enterradas no solo, mesmo antes da análise da proposta enviada à Cetesb, destaca o diretor da Agência Ambiental de Bauru. Os passos das duas empresas têm sido acompanhado pelo promotor do Meio Ambiente de Bauru, Luiz Eduardo Sciuli de Castro, desde o ano passado.
“O Mistério Público está tentando obter a documentação enviada (pela Texaco e Ipiranga) à Cetesb, em São Paulo. A partir dela vamos estudar as medidas que serão tomadas”, explica Castro.