A audiência pública realizada ontem à tarde na Câmara Municipal de Bauru para discutir os serviços prestados aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) elegeu o atendimento oferecido na rede básica de saúde como principal problema do setor no município. O fato estaria sobrecarregando o Pronto-Socorro (PS) Central e, conseqüentemente, os hospitais. O sistema precisa ser readequado para ampliar a oferta na rede básica.
O diretor técnico da Direção Regional de Saúde (DIR-10), Affonso Viviani Júnior, afirma que o número de atendimentos realizados nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Bauru é insuficiente. “Isso vem se agravando ano a ano. Recentemente, verificamos que o patamar necessário de evolução de oferta de consultas médicas na rede básica não vem suprindo a necessidade”, constata.
Segundo ele, em 2003 as UBS proporcionaram apenas 65,21% das consultas necessárias, enquanto o PS Central atendeu, no mesmo período, mais de 200% do número de pacientes previsto para a área de urgência e emergência. “Enquanto convivermos com essa distorsão, todo o sistema que nós estamos gerenciando continuará com problemas”, prevê.
O diretor de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal da Saúde, médico João Sérgio Carneiro, concorda com os apontamentos feitos por Viviani Júnior. “Há um excesso de serviços prestados pelo PS. O nosso maior número de atendimentos é de unidade básica e ambulatorial, que não seria o nosso objetivo”, diz.
Ele revela quais seriam as possíveis explicações para o fenômeno. “A maioria dos problemas é com relação às internações eletivas. O paciente quer, às vezes, resolver o seu problema transformando-o em urgência”, declara.
Carneiro cita um exemplo para ilustrar a situação. “Um cidadão que tem uma hérnia há anos e não consegue solucionar a questão na parte eletiva, vai ao PS e o colega que está atendendo, em razão do excesso de trabalho, acaba o encaixando em uma solicitação de vaga em hospital, o que causa todo esse tumulto”, aponta.
Soluções
O diretor técnico da DIR-10 acredita que é possível contornar o problema e indica soluções para melhorar o atendimento. “O sistema municipal de saúde precisa se readequar no sentido de ampliar a oferta nas unidades básicas de saúde, acelerar a implantação do Programa Saúde da Família, que ainda é tímido no município, e caminhar para a gestão plena, em que a prefeitura e a Secretaria Municipal assumiriam o sistema”, opina Viviani Júnior.
Segundo o diretor de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal da Saúde, já há um trabalho sendo realizado no sentido de amenizar os problemas. “Estamos tentando fazer um estudo das internações para melhorar o nosso diagnóstico, mas isso é difícil, por causa do excesso de pacientes e da demora dos exames complementares”, argumenta.
Para a diretora do Departamento de Planejamento, Avaliação e Controle (Depac) da Secretaria Municipal da Saúde, Heloísa Ferrari Lombardi, o número de profissionais do sistema também precisaria ser ampliado. “O ideal seria que tivéssemos um médico a mais em cada unidade básica de saúde”, afirma.
Outro ponto abordado durante a audiência pública foi a gratificação de 125% nos salários dos profissionais que trabalham no setor de urgência e emergência. Questionado sobre o assunto, Carneiro diz que o quadro seria pior caso não houvesse esse incentivo. “Se com 125% a mais estamos há seis meses tentando contratar, em vão, pediatras, imagine se fosse diferente”, diz.
Durante o debate, o diretor do Hospital Estadual (HE), Emílio Carlos Curcelli, apresentou números referentes aos atendimentos prestados pela instituição no primeiro ano de funcionamento.
Já o representante da Fundação para o Desenvolvimento Médico Hospitalar da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Alfredo Barreto, explicou a função da entidade, responsável pelo gerenciamento de recursos financeiros para o HE.
O administrador da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), José Cardoso Neto, falou sobre o trabalho desenvolvido nos hospitais de Base, Manoel de Abreu e Maternidade Santa Izabel, gerenciados pela instituição.
A audiência pública de ontem foi convocada pelos vereadores Majô Jandreice (PC do B) e Faria Neto (PDT) e contou com a participação de representantes de entidades da área da saúde e associações de moradores, entre outros.