Vinte e um por cento dos pacientes de Bauru que agendaram consultas no Hospital Estadual (HE) neste primeiro ano de funcionamento da unidade, não compareceram e deixaram os médicos esperando. O número de faltosos foi de 4.661 de um total de 22.419 atendimentos oferecidos aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) do município.
As faltas causam prejuízo no atendimento porque o hospital atende menos que sua capacidade. No quadro geral de faltas, somadas as 39 cidades da Direção Regional de Saúde (DIR-10), Bauru detém 52% das ausências registradas.
Porém, avaliando a proporção entre os atendimentos oferecidos por cidade e o total de desistências, Barra Bonita lidera o ranking de abstenção. Bauru está na 10.ª posição, junto com Balbinos e Promissão.
As especialidades mais penalizadas com o não-comparecimento dos pacientes são ortopedia, cardiologia e dermatologia, nessa ordem. Sem encontrar uma explicação para o problema que atinge mais intensamente algumas especialidades, a diretoria do HE realizará uma pesquisa junto aos faltosos, a partir do próximo mês.
“A Ouvidoria vai realizar um levantamento enviando cartas aos pacientes que não compareceram perguntando o motivo (da ausência)”, informa o diretor-técnico do HE, Carlos Alberto Macharelli. Mesmo assim, ele arrisca algumas hipóteses para justificar as abstenções, como a desatualização da listas de triagem, a demora no atendimento, além da distância do hospital dos bairros periféricos.
“O pessoal do serviço social tem recebido queixas de pacientes que não têm condição de pagar dois passes de ônibus. Também estamos com déficit (de profissionais) na cardiologia. As consultas estão sendo marcadas para fevereiro. Quando o atendimento demora, a pessoa procura outra alternativa, como o pronto-socorro (PS)”, relata Macharelli.
Ele ressalta que o processo de contratação de cardiologistas pelo HE está em curso. Já a procura indevida do pronto-socorro foi apontada como um dos principais problemas do sistema de saúde na audiência pública realizada na Câmara Municipal, anteontem.
Na oportunidade, o diretor de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal da Saúde, João Sérgio Carneiro, confirmou o excesso de serviços prestados pelo PS. Disse que o maior número de atendimentos é da unidade básica e ambulatorial, quando o ideal seria a assistência quase exclusiva aos casos urgentes. Ontem, o JC não o encontrou para comentar o assunto.
Realidade sentida
Sem descartar as hipóteses apontadas, o diretor-técnico da DIR-10, Affonso Viviani Júnior, ainda supõe que alguns pacientes faltam às consultas por não considerá-las necessária. “Ele (o usuário do SUS) vai à unidade básica de saúde, recebe uma medicação e entende que não há necessidade de prosseguir com o tratamento. É uma questão de realidade sentida”, diz.
Não foi o que ocorreu com Renata Silva, moradora de Bauru. Ela deixou de levar o filho Lucas a uma consulta no HE porque ele ficou resfriado e ela estava em semana de experiência no trabalho. “Faltei uma vez porque não consegui transporte”, informa Maria Regina da Conceição, que veio de Jaú para receber tratamento dermatológico.
Já Noemia Gonçalves deixou de passar por um cardiologista porque não tinha companhia para vir de Dois Córregos. “Desmarcamos e reagendamos para hoje (ontem)”, conta a nora Maria Cristina.
As faltas, mesmo as avisadas pouco antes da consultas também representam problema sério nos consultórios particulares, confirma um médico que preferiu ter a identidade preservada.
De acordo com ele, alguns pacientes chegam a confirmar a consulta na data em que ela está agendada e ainda assim não comparecem. Em alguns dias, o índice de abstenção ultrapassa os 20%.
“Cogitamos até a possibilidade de cobrar a consulta, mesmo que a pessoa falte. A medida vai causar mal-estar generalizado, mas essa postura deselegante, além de atrapalhar os médicos que ficam ociosos e irritados, prejudica outros pacientes”, conclui.
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Líder
A secretária municipal de Saúde de Barra Bonita, Maria Terezinha Barducci da Silva, também não sabe explicar com precisão a razão do grande índice de faltosos entre os pacientes do município nas consultas agendadas pelo Hospital Estadual (HE) de Bauru.
Segundo ela, a mesma ausência é constatada em outros hospitais da região, como Jaú. “Começamos a pedir que a pessoa vá até a secretaria dois dias antes da consulta para confirmar o atendimento. Eles (os usuários) vão e no dia do exame não comparecem”, critica.
Para a secretária, a explicação pode estar no fato dos pacientes de Barra Bonita procurarem a mesma assistência médica em vários hospitais da região. “Eles procuram atendimento em mais de um município utilizando comprovantes de residência falso. Temos discutido o problema com a Direção Regional de Saúde (DIR-10)”, diz Silva.
Ela ressalta que, em respeito à portaria número 55 do Ministério da Saúde, o município de Barra Bonita se responsabiliza pelo transporte do paciente que não consegue atendimento especializado na cidade e precisa ser conduzido para outra localidade.
O procedimento também é adotado em Bauru, que conta com um Programa de Tratamento Fora do Domicílio para os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
A Secretaria Municipal de Saúde de Bauru ainda disponibiliza passes aos pacientes carentes que buscam atendimento nos núcleos de saúde, mas por falta de especialistas são encaminhados para outra unidade. Cerca de seis mil passes são distribuídos todo mês para atender esses casos, informa a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).
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