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Trabalhador é despejado após acidente

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

Pirajuí – Vítima de um acidente que mutilou seus órgãos genitais, o aposentado Alcir José de Paula, 43 anos, foi despejado na semana passada da fazenda São José, em Pirajuí (65 quilômetros a Noroeste de Bauru). O acidente ocorreu há quatro anos dentro da propriedade rural e, atualmente, o aposentado aguarda o resultado de um processo de indenização trabalhista.

A determinação de reintegração de posse, expedida pelo juiz Fábio Correia Bonini, da 1.ª Vara do município, é resultado de uma ação movida em favor do espólio de Sebastião Walter Pereira, antigo proprietário das terras e empregador da vítima.

O despejo do aposentado é apenas mais um capítulo de um drama que começou no final da tarde de 1 de outubro de 1999. Conforme matéria publicada pelo JC, naquela data, Alcir teria descido do trator da fazenda e se posicionado em frente a uma porteira para abri-la, quando o veículo teria se desgovernado, avançado em sua direção.

No momento do acidente, o pára-choque da máquina atingiu e mutilou o pênis e os testículos do trabalhador, comprometendo inclusive sua uretra.

A vítima foi socorrida na Santa Casa de Misericórdia de Pirajuí, sendo transferida em seguida para o Hospital de Base de Bauru, onde ficou internada por cerca de 20 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Desde então, Alcir teria passado por cerca de cinco cirurgias, mas não houve possibilidade de reimplante dos órgãos, nem para fins urinários. Atualmente, a vítima sobrevive com o uso constante de uma sonda, para escoar urina do organismo. “Até hoje não descobriram uma forma de reconstruir a uretra dele”, afirma a advogada do trabalhador, Solange Eliana Ferreira Lopes.

Segundo ela, desde o acidente, Alcir não teria recebido assistência formal de seu empregador. “A família chegou a fornecer injeção para dor, aspirina, mas descontou do 13.º salário dele”, afirma. “Ele não morreu graças à caridade alheia e aos médicos”, denuncia.

A revolta do aposentado se acentuou na última semana, ao tomar conhecimento da determinação judicial de reintegração de posse. Desde o acidente, Alcir continuava morando com a família em uma casa dentro da propriedade. “Há quatro anos eu venho vivendo uma agonia. Agora então com esse despejo a situação ficou pior”, afirma o trabalhador, que é casado e tem três filhos.

Depois da decisão judicial, na sexta-feira passada a família mudou-se para uma residência no centro da cidade, cujo aluguel é R$ 100,00. Atualmente, Alcir está aposentado por invalidez e recebe um salário mínimo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

De acordo com a esposa da vítima, Maria Aparecida Mendonça de Paula, 46 anos, a família tem sobrevivido com dificuldades. “Nós gastamos muito com remédio por causa do problema dele. Vivendo com um salário mínimo, a gente passa apertado”, confessa.

A advogada do trabalhador afirma que não vai recorrer da decisão judicial, já que levaria muito tempo para ocorrer um novo julgamento, em segunda instância. “Se eu recorro, vai levar dois, três anos para sair uma decisão do Tribunal de Justiça”, afirma.

Indenização

Em abril de 2000, a advogada de Alcir entrou com uma processo de indenização por acidente de trabalho contra o proprietário das terras, no valor de cerca de R$ 1 milhão. “Esse é o valor da época, não atualizado”, explica Solange.

O processo corre pela 2.ª Vara de Pirajuí e a advogada acredita que a decisão judicial sairá nos próximos meses.

Alcir, que lamenta o fato de não poder mais trabalhar na lavoura, aguarda o resultado com ansiedade. “Eu espero que a justiça seja feita”, afirma.

O então proprietário das terras, Sebastião Walter Pereira, morreu cerca de um ano após o acidente do trabalhador. Procurada pela reportagem, a família dele afirmou que só se pronunciaria sobre o assunto por meio de seu advogado, Fernando Polito Silva.

Durante a semana, o JC tentou por diversas vezes entrar em contato com o advogado, entretanto não recebeu retorno.

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