Saúde

Manias: Quando o hábito torna-se doença

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Roer as unhas, chupar o dedo, coçar a cabeça, repetir determinado gesto, arrumar demais, limpar demais, sentar-se sempre no mesmo lugar são apenas alguns exemplos de atitudes comumente adotadas pelo ser humano para aliviar um mal-estar ou desconforto momentâneo. Ninguém escapa: todo mundo tem pelo menos uma mania na vida. Mas, segundo especialistas, existe um limite entre o que é saudável e o que pode fazer mal.

Para a psiquiatra Elaine Dias de Oliveira, todo comportamento repetitivo indica que alguma coisa não vai bem emocionalmente, que algo não está normal. São gestos que dão alívio ou prazer em momentos de preocupação, cansaço, timidez, ansiedade, insegurança e uma infinidade de outros sentimentos que abalam o indivíduo.

“Isso não significa que todos os casos precisam de tratamento. A maior parte desses rituais desaparece espontaneamente. O diferencial está na intensidade e na freqüência das repetições. As manias tornam-se patológicas (doentias) quando a pessoa não consegue mais se controlar”, explica.

De acordo com o psiquiatra Wilson Siqueira, muitos desses hábitos “estranhos” fazem parte de determinadas fases da vida e isso é muito comum na infância. “Até os cinco anos de idade, por exemplo, todas as crianças passam pela fase da oralidade, que é a primeira etapa do desenvolvimento do psiquismo. Neste período, a criança tende a levar qualquer coisa à boca”, observa.

O médico ressalta que é comum as mães entenderem as manias infantis como reflexos de traumas vividos durante a gravidez. “Isso é um grande mito. Dentro da mãe, o bebê está seguro, tem companhia, não sente fome, frio ou sede. Só quando ele nasce é que sua estrutura emocional é acionada”, afirma.

“Aí, ele sente necessidade de ‘plugar-se’ a alguma coisa e seu primeiro vínculo de segurança é o seio materno, obtido pela boca. Então, a primeira fonte de prazer que o bebê conhece é a boca. A chupeta e o dedo conferem tranqüilidade à criança e isso é considerado normal até certa idade, quando outras fontes de segurança começam a ser descobertas”, descreve.

As necessidades de prazer e segurança acompanham o indivíduo por toda a vida, mas elas são diluídas em várias fontes. O distúrbio aparece quando a pessoa centraliza essa necessidade num único canal, tornando-se dependente dele.

É o que acontece, por exemplo, com a “mania” de só pisar em determinados pontos. É muito comum a criança sair pelas ruas e praças dizendo que só pode pisar nos quadrados pretos ou só nas riscas ou equilibrando-se na guia e assim por diante. A missão dos pais é observar com que intenção ela faz isso.

Na maioria das vezes, a atitude faz parte de uma brincadeira, um desafio, um jogo onde a regra é não pisar em outro lugar, senão naqueles pontos pré-determinados.

“Se ela está distraída fazendo isso, você oferece um sorvete de longe e ela sai correndo para pegá-lo, era um jogo. Mas se ela fica ali, angustiada porque ‘não pode’ pisar fora, então o hábito está causando um dano à rotina e à produtividade da criança. Deixa de ser fonte de prazer para tornar-se fonte de sofrimento”, ensina.

Isso pode ser observado em diversas atividades da pessoa. Seguindo o exemplo anterior, a criança começa a apresentar problemas para andar pelas ruas, ela se recusa a caminhar se não houver o padrão estabelecido na calçada. Ela passa a chegar atrasada na escola porque sente que “tem” de desviar o caminho para não desrespeitar a “regra”.

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