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A cidades e as metas


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O pensador marxista italiano Antonio Gramsci, preso pelos fascistas nos anos 20 do século passado, escreveu em seus “Cadernos do Cárcere” (Ed. Civilização Brasileira) que a democracia precisa sempre de uma ampliação de mobilização das camadas da sociedade. A ampliação da participação, por sua vez, depende, na maioria dos casos, de que as pessoas se convençam de que devem fazer política para defender seus interesses corporativos. Corporativismo, no Brasil, ganhou sentido pejorativo. Tem o significado de “panelinha” em defesa de interesses mesquinhos. O termo “corporativo”, na concepção teórica de Gramsci, considera os grandes grupos, as grandes corporações, os fundamentos da estrutura social, isto é, os interlocutores essenciais do Estado.

Levou-me a essa lucubração a notícia sobre a audiência pública ocorrida na Câmara, quinta-feira, onde professores de economia da ITE, empresários e representantes da sociedade apontaram “a necessidade de planos de metas bem definidos para o futuro” de Bauru. Impossível tratar agora do conteúdo das discussões. Mas, assim entendi, cidadãos reunidos buscam formas de pôr alguma ordem no caos político-econômico-financeiro que se instalou nesta cidade nas duas últimas décadas, pela falta de políticas públicas e definições corretas de prioridades.

As classes produtoras, a massa crítica das universidades, os políticos e o povo é que precisam apontar os rumos. Nada pode ser produto de uma única ou poucas cabeças para não dar no que deu. Segundo Gramsci, uma motivação corporativa é necessária - legítima - nos primeiros níveis da mobilização política (os níveis daquilo que ele chama de “pequenas políticas” é que levam a uma reflexão comprometida com as demandas da sociedade como um todo).

Mas onde fica o governante eleito em tudo isso? Gramsci reservava o papel de catalisar os interesses da sociedade ao partido. Antes do partido havia a figura do Príncipe, de Maquiavel. No Brasil partido é apenas um suporte para atender a legislação eleitoral, mais traído que mulher feia. Foi substituído pela televisão com seus programas gratuitos. Quanto mais tempo na televisão mais forte é o partido. A TV é o Príncipe Eletrônico, segundo o sociólogo Otavio Ianni. Então o que deve fazer o prefeito, o governador ou o presidente nesse contexto democrático?

Max Weber em “Política como vocação e a ciência como vocação” escreveu ser a paixão o que distingue o homem político do mero administrador ou burocrata. Para o verdadeiro político a paixão é essencial e exige dele um comportamento “cum ira”. Com aquela gana de pegar com as duas mãos a boa idéia e perseguí-la até transformá-la em mais um benefício para a própria comunidade que a ela deu legitimidade. O governante há que ser como o Riobaldo, de Guimarães Rosa, que se tornou eficiente de tanto especular idéias: - “... para pensar longe sou cão-mestre - o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!”

O triste dessa vida pública do Brasil de hoje é que são cada vez mais raros os cães-mestres e mais escassas as idéias, nem ligeiras nem lentas. Por isso a satisfação em reconhecer que em Bauru há idéias. Não idéia como aquela do ministro do Desenvolvimento que trocou a ala da Escola de Samba na viagem do nosso “presidente das arábias” por um grupo da Gavião da Fiel, torcida oficial do Corinthians, time do coração de Lula. E o ministro da Cultura faz de conta que não houve ingerência na sua pasta.

Faltam idéias até para roubar o erário. Governantes são pegos com a boca na botija e juram inocência. Quando dá para retroceder, tudo bem. Se não dá, bola pra frente. Dizia o Millôr que “nossos políticos são tão incompetentes que só conseguem roubar o governo. Se fossem ladrões da iniciativa privada morreriam de fome”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.

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