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Tolerância


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Esta expressão se popularizou depois que o então prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, implantou um regime duro na cidade para reestabelecer a ordem através da rigidez, deixando de lado alguns princípios de prudência. Entenda por princípio de prudência aquela tolerância suficiente para que você tenha tempo para provar que não é bandido antes de levar chumbo ou ser humilhado. Após quase uma década, o que nos chega é que a grande maçã (carinhoso apelido de Nova York) está submersa em crise financeira sem precedentes (deve US$ 3,8 bilhões), e a podridão do Centro apenas se transportou para as adjacências.

Em escala mundial, podemos perceber Bush, o filho, aplicando o princípio da tolerância zero contra o terrorismo. Depois de algum tempo, o que vemos? Um Afeganistão tomado pelo cultivo de papoulas usadas na fabricação de substâncias que dão barato, o Iraque gradativamente se transforma em Vietnã, a Al-Qaeda em plena atividade, israelenses e palestinos se matam como nunca, o petróleo continua caro e o equilíbrio financeiro dos Estados Unidos se destroça rapidamente.

Fidel aplica a tolerância zero em Cuba, enviando os direitos humanos às favas. Fuzila quem tenta se apropriar de balsas para fugir em direção a Miami. Passa a receber duras críticas até de quem o elogiava, e ao mesmo tempo não consegue fazer emergir um sucessor que evite o desmantelamento do sistema tão logo ele parta desta para uma melhor. O modelo de combate às drogas financiado pelos norte-americanos, baseado no princípio da tolerância zero, dizima quilômetros da maior floresta tropical do mundo ao borrifar veneno sobre plantações suspeitas. Sem falarmos da legislação que autoriza o abate de aviões tripulados suspeitos de transportarem drogas.

Em 20 de abril de 2001, mãe (missionária no Peru desde 1993) e filha de 7 anos foram assassinadas quando militares peruanos e americanos se enganaram, achando que o avião transportava cocaína. O que nos chega é um aumento generalizado do consumo e comercialização de substâncias proibidas, sejam elas naturais, químicas ou sintéticas.

Será que é por aí? Em 1855, João Bosco revolucionou o tratamento aplicado aos jovens que ficavam no reformatório La Generala, em Turim, Itália. Bosco procurava estruturar o jovem de modo a cultivar nele bons valores, e investia incansável na sua inserção social. Os índices de reincidência no crime, claro, despencaram. A Holanda, no contra-fluxo, deixou de tratar as drogas como problema policial e passou a tratar como problema social. Aparece seguidamente entre os mais bem sucedidos no combate ao consumo de drogas. Projetos que envolvem atividades culturais e esportivas em favelas cariocas apresentam resultados interessantes, que driblam o crime organizado.

Destaque de eficiência em termos de prevenção e recuperação é aquela inventada pelos escravos brasileiros, descontraída e gingada, proibida e combatida até meados do século 20, e discriminada por muitos até hoje: a capoeira. Parques estaduais e nacionais evoluem no quesito respeito com a cultura dos povos do local, variável que já ecoa pelo Partido Verde. Talvez os Centros de Ressocialização implantados no Estado apresentem resultados melhores quando comparados àqueles de penitenciárias e febens, onde a tolerância é zero.

Nossa batalha, humanos, é disseminar intensamente o preceito da tolerância (diferente de idiotice ou cordeirismo). A intolerância, ou tolerância zero, geralmente confunde conseqüência com causa, e desfoca a questão radical, que atende por educação de qualidade. Aquela que apresenta as diversas faces do mundo como diferentes, e não como certas ou erradas. Aquela educação com caráter humanístico, que prega o respeito, a tolerância. Seja pela carga genética, seja pela interação com o meio, seja por ambos somados, todos somos diferentes. A tolerância, portanto, é princípio de convivência, de sobrevivência.

José Paulo Toffano é coordenador regional do Partido Verde e secretário de Meio Ambiente de Jaú.

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