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Ser ou não ser?


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O drama do príncipe da Dinamarca, mais que o conflito familiar e a traição abjeta de um tio usurpador, adquire o contorno angustioso da inquietação humana diante de sua origem e de seu destino. O espectro do pai assassinado, a ingênua mãe amparada pelo tio assassino, a loucura fingida de Hamlet nada mais são do que a moldura de um quadro mais complexo pintado com as sombrias tintas das dúvidas existenciais de todo ser humano.

Consta que Shakespeare teria extraído o mito de Hamlet de uma antiga lenda escandinava contada por Saxus Grammaticus, um dinamarquês do século 12. A peça foi registrada em 1602 e impressa em 1603. O rodar dos séculos, no entanto, não tornou o drama anacrônico; pelo contrário; é atual por conter questões não resolvidas no decorrer deste enorme tempo.

Ser ou não ser? Morrer, ou simplesmente dormir? Cessariam assim os pesares do coração? Que sonhos poderiam sobrevir após a morte? Por que deveria uma vida calamitosa prolongar-se por um tempo tão grande? Por que suportar os reveses da vida sendo tão fácil concluí-la com as próprias mãos? Seria a consciência que tornaria os homens covardes diante da possibilidade de interromper as contrariedades que se sucedem na experiência da vida?

A consciência humana não poderia tornar o ser humano covarde afastando-o das respostas; não seria então com ciência, com verdade, com conhecimento; seria uma outra coisa qualquer. O dilema, no entanto, persiste: ser ou não ser?

A prerrogativa de ser existe; somente o próprio indivíduo poderá realizá-la. E como se chega a ser o que não se é? Como se chega a saber o que não se sabe? O que se quer saber? O que se quer chegar a ser? Uns querem ser ricos; outros admirados. Uns querem ser doutores, intelectuais, reconhecidos. E todos começam não sendo nada. E quando chegam a realizar os sonhos mencionados - e são muito poucos os que o conseguem - percebem que aquilo era pouco, não era o que imaginavam. Tudo fica parecendo um brinquedo velho, sem graça, imprestável; e volta-se ao ponto de partida. As reflexões básicas de Hamlet adquirem uma nova dimensão: o que eu quero ser? O que eu quero saber? O que preencheria o vazio que habita a minha alma?

Nesse momento, a reflexão sensata leva o indivíduo a voltar-se para si mesmo e encarar a própria realidade; não aquilo que se esforça por aparentar ser para os demais, mas aquilo que realmente é: um ser eventualmente ilustrado, mas pouco provido do conhecimento essencial, pois pouco conhece sobre si mesmo, sobre as causas de seus desacertos, de suas tristezas, de seus desentendimentos consigo mesmo e com seus semelhantes. Descobre que lhe falta o conhecimento sobre sua própria pessoa, o conhecimento de si mesmo; que para ser o que não é deve conhecer-se para poder vislumbrar o que pretende ser. Desenha-se em sua mente um processo de superação cujo paradigma é ele próprio e não os seus semelhantes; que deve buscar ser melhor que ele próprio ao invés de ser superior aos demais; saber com que recursos conta e o que deve ser aperfeiçoado em sua estrutura psicológica e espiritual. Ser ou não ser? Saber ou não saber? É possível que a reflexão profunda e sincera contenha em sua formulação a resposta.

O autor, Nagib Anderáos Neto, é escritor - e-mail: andergatti@terra.com.br

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