Polícia

Fugitivos podem ter recebido ajuda

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Nenhum dos 11 internos da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) que fugiram anteontem à noite da unidade de Bauru havia sido recapturado pela Polícia Militar (PM) até o fechamento desta edição. O “sumiço” dos menores pode estar relacionado a uma fuga planejada com apoio externo.

Nas fugas anteriores, pelo menos um adolescente foi localizado no dia seguinte à ocorrência. Por essa razão, o diretor da unidade de Bauru, Paulo Orti, não descarta a possibilidade da ação dos menores ter contado com a retaguarda de terceiros.

“Estamos trabalhando com todas as hipóteses. Foi uma ação muito rápida e eles sumiram muito rápido, mas não vimos carros nas proximidades da unidade. Soubemos que os adolescentes correram para todas as direções”, afirma o diretor.

De acordo com ele, desde domingo, dia da última visita, o clima começou a ficar tenso na unidade: os adolescentes demonstravam mais agitação e resistência às atividades socioeducativas propostas.

“Como a casa estava difícil, fizemos algumas ações preventivas. Passei um alerta aos funcionários. Também tomamos outras providências de ordem administrativa, como a transferência de alguns menores”, explica Orti.

Porém, a iniciativa não foi suficiente para conter a ação dos internos. Dos 11 fugitivos, nove são de Bauru, um de Lençóis Paulista e outro de Ribeirão Preto. Dois deles são maiores de idade e responderão na Justiça pela ação realizada anteontem, esclarece o delegado titular da Delegacia da Infância e Juventude (Diju), Adib Jorge Filho.

“Esses adolescentes estão com o uniforme da Febem e o cabelo raspado. (Em casos suspeitos), a comunidade deve acionar imediatamente a polícia”, diz o delegado.

Reincidentes

Dos 11 fugitivos, nove são reincidentes e estavam decididos a fugir, enfatiza o diretor da unidade de Bauru. “O resto da casa não se envolveu, o que significa que o projeto sociopedagógico está surtindo efeito nos outros adolescentes”, acrescenta Orti, que garante ter sido comunicado pelos servidores da Febem sobre a fuga, enquanto os adolescentes ainda estavam na unidade.

De acordo com seus cálculos, a ação dos internos teria começado por volta das 20h25 e ele teria sido comunicado da ocorrência às 20h30. Em contato telefônico com um funcionários, Orti pediu para que a PM fosse acionada e, para reforçar a solicitação, ligou do próprio celular. “Quando cheguei à unidade entre às 20h40 e 20h45, a polícia já estava aqui”, frisa.

Os registros da polícia não são muito diferentes, mas de acordo com o comandante da 1ª Companhia da PM, capitão Benedito Roberto Meira, em dez minutos uma pessoa que está a pé consegue alcançar uma grande distância.

“(A demora) dificulta toda a ação da polícia. Toda a cercania da unidade é de mato. Tem o Jardim Botânico lá perto. É muito tempo”, comenta Meira. Os registros policiais obtidos por ele indicam que somente às 20h40 a primeira viatura chegou Febem de Bauru, dois minutos após à comunicação à Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). Para ele, 20h20 é o horário estimado da fuga.

A demora é contestada por Orti, que confirma o atendimento rápido dos policiais. “A polícia já havia sido avisada que a situação da casa estava difícil. A diretoria de segurança da Febem comunicou desde terça-feira a Secretaria de Segurança Pública”, conclui.

Por essa razão, na opinião dele, a previsão do Sindicato dos Trabalhadores em Entidades de Assistência ao Menor e à Família do Estado de São Paulo (Sitraenfa) de que haveria fuga, publicada ontem pelo JC, partiu de dentro da própria unidade, na qual eles não entraram anteontem.

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Portaria judicial

Em outubro passado, quando a Febem registrou rebelião e fugas individuais e coletivas, o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, baixou uma portaria para que a unidade de Bauru readequasse o quadro de funcionários. Na época, 64 servidores trabalhavam na instituição, número que correspondia a 52% do previsto no quadro da organização.

Naquele período, o magistrado fixou prazo de 15 dias para que o problema fosse revertido, tolerando apenas 10% de afastamentos como férias e licenças. Antes de terminar o mês, a unidade local recebeu um reforço de 26 servidores.

Porém, Maintinguer nunca determinou um número exato de funcionários para atender diretamente os menores no pátio, como sugeriu ontem o diretor da unidade, Paulo Orti, em matéria publicada ontem pelo JC.

“Não me cabe fazer isso, uma vez que a referida atribuição é da Febem que, a partir de sua experiência e critérios científicos, deve fixar o quadro de seus funcionários”, esclarece o juiz em documento enviado ao JC. Ele reitera que apenas determinou que fosse preenchido o quadro de funcionários determinado pela administração da Febem.

Maintinguer será procurado hoje pelo presidente da Associação de Moradores do Núcleo Habitacional Presidente Geisel e vice-presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Sudeste, Ismael Martins Borges, que quer discutir a segurança do bairro.

Borges busca uma solução na área de segurança publica para apresentar aos moradores do bairro, que estão inseguros com as constantes fugas. A iniciativa vai beneficiar, por exemplo, familiares de Antonio Maldonado Galera, que ficaram assustados quando adolescentes da Febem passaram pelo telhado da casa deles durante uma das fugas.

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