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A bondade ambígua


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Todo homem nasce bom. O convívio social é que o torna um cidadão cheio de vícios e pecados. Desde que essa idéia de Rousseau sobre a bondade natural do ser humano caiu em descrédito, paira sobre a bondade uma suspeita constante. Um sujeito bom se defronta o tempo todo com a desconfiança dos outros, que não podem deixar de se perguntar: Será um malandro? Ou é apenas um paspalhão?

Os espanhóis dizem que “o “bom” é ambíguo, tem um “bom e um mau sentido”. A bondade comporta seus perigos. Existe uma bondade inteligente, mas também existe uma bondade burra. O grande poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht, na peça “A alma boa de Setzuan” mostra como a bondade que não consegue reconhecer seus limites acaba por se negar a si mesma.

Mesmo com o apoio dos deuses, a moça Chen Te não consegue disciplinar as atividades da sua comunidade, não consegue fazer prevalecer a justiça. Assume, então, a identidade do primo Chui Ta, que, embora, em última análise, também seja bom, é capaz de exercer sobre os outros a coerção necessária para impedi-los de agir contra o interesse coletivo.

O brasileiro tem essa índole cordial capaz de absolver desde o bandido da luz vermelha até o mais vil ladrão do erário. O escritor Emil Farha escreveu um livro justamente intitulado “O país dos coitadinhos”. Todos, aqui, são dignos de dó, não importa o mal praticado.

Outro dia filava a leitura das maravilhosas “Fábulas” de La Fontaine, agora reeditadas em dois volumes preciosos, acondicionados numa belíssima caixa. O preço é salgado: R$110. Então, tento ler de pé, até que as pernas resistam ou o homem da livraria me expulse. Os livreiros locais deveriam ser, estes sim, mais bondosos com os filantes. Na Barney & Noble, em NovaYork, existem sofás confortáveis para os clientes ficarem lendo qualquer um dos milhares de títulos à venda, sem serem importunados. Mesmo que nunca comprem. Tempos atrás, o recepcionista foi obrigado a chamar o velhinho com o livro no colo, cabeça pendida, óculos na ponta do nariz. Estava na hora de fechar. Descobriram que havia morrido há horas.

Usando os bichos como protagonistas de suas narrativas morais, La Fontaine sabia tornar ridículas as fraquezas da humanidade. O quadro de vícios, perversões e maldades pintado pelo fabulista, de tão nítido, nos faz rir e chorar ao mesmo tempo. Sinceramente, o homem, passados quatro séculos da primeira publicação das lições do sábio francês, já era para ter tomado vergonha na cara. Ou então que optasse por ser bicho, como desejaram os companheiros de Ulisses transformados em porcos, ursos, lobos e leões por Circe. A amante feiticeira do herói de Ítaca poderia reverter o feitiço e transformar seus soldados novamente em gente. Mas estes se recusam. Querem se manter na pele dos brutos, temendo perder a força animal que adquiriram na metamorfose. Temem ter que trabalhar ou voltar a vassalos, em vez de senhores da floresta. A condição animal, concluem, é melhor que a humana.

Chega a desanimar o fato das mazelas não terem mudado. Todos os dias, os jornais publicam as malversações. E continuamos a acreditar que quem rouba o povo até que é um político competente, só que mal assessorado. É constrangedoramente atual, por exemplo, a fábula “O cão que leva o jantar ao dono”. No meio do caminho, ele encontra um bando de vira-latas que querem tomar a refeição do seu senhor. Ele vê que será inútil resistir à malta inimiga e resolve abocanhar o que for possível da refeição. Estes são os versos do fim da fábula: â€œÉ semelhante este cão/ ao funcionário zeloso/ Que arrecada escrupuloso/ os dinheiros da nação./ Mas não podendo estorvar/ Que os outros comam o bolo/ Não quer que lhe chamem de tolo/ É o primeiro a roubar”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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