Articulistas

Chama extinta da imortalidade


| Tempo de leitura: 3 min

Eleito com folga, Marco Maciel vai para a Academia Brasileira de Letras e fica de fora o Fernando Morais. Sinceramente, não sei o que teria escrito o político pernambucano. Talvez os acadêmicos tenham considerado obras-primas alguns dos seus discursos. Afinal, a mesma entidade cometeu a desfaçatez, no passado, de trocar Monteiro Lobato por Getúlio Vargas, por causa dos “discursos de profundo conteúdo literário e social” (bah!). O que fez Getúlio socialmente? Entregou à Gestapo de Hitler a mulher de Luiz Carlos Prestes, Olga Benário, judia, comunista, grávida. Sua vida, paixão e morte num campo de concentração foram temas da grande reportagem de Fernando Morais que virou o livro “Olga”. Com maestria, soube fazer jornalismo literário à altura de Truman Capote. Colheu depoimentos inéditos, papéis secretos sobre a revolta comunista de 1935 no Brasil e recolhidos em arquivos alemães, brasileiros e norte-americanos. Mergulhou na alma dos personagens.

Antes disso, já havia produzido “A ilha”, sobre Cuba e a vida sob Fidel Castro. Sua última obra foi “Chatô, o rei do Brasil”, outro monumento literário sobre a vida e o “joie de vivre” daquele paraibano que construiu um império de comunicação e ensinou a pau a burguesia gastar em coisas de bom gosto, como na aquisição de quadros famosos para o Museu de Arte de São Paulo. De propósito estou deixando de analisar o prefácio de FM e o livro de Abrahim Dabus, obra que será objeto de análise em outra ocasião.

Há muitos anos os acadêmicos agem movidos por interesses menores. É claro que existe gente séria como o João Ubaldo. A maioria, mesmo que esperneie, vai continuar no limbo, tomando chá e roendo brioches pela vida afora. Em 1980 barraram o Mário Quintana. O poeta, que estava quieto no seu quarto de hotel em Porto Alegre produzindo suas poesias que maravilharam o Brasil e o mundo, foi convidado por eles para a cadeira de Octavio de Faria, depois de ganhar o Prêmio Machado de Assis. Mas quando Eduardo Portela, que não era mas estava ministro da Cultura (risos) do Figueiredo se candidatou a toque de caixa, puxaram o tapete do gaúcho para votar em Sua Excelência. Desacostumado com a sabujice do fardão, Quintana, deprimido, acabou internado numa clínica. Nesse lance, e quando trocou Orígenes Lessa por Sarney, a ABL mostrou o que é: uma casa de tolerância. Melhor fariam se elegessem o candidato de Bauru com suas deliciosas cartas publicadas na Tribuna do Leitor. Por que não agem com a mesma seriedade da Academia Bauruense de Letras tão bem presidida pelo Munir Zalaf?

Como presente de Natal para os meus leitores que ajudam a me imortalizar dou-lhes uns versos saídos do poema “Um céu comum”, onde o Mário hoje flana enquanto os puxa-sacos amargam o purgatório: No céu vou ser recebido/ com uma banda de música./ Tocarão um dobradinho/ daqueles que nós sabemos/ - pois nada mais celestial/ do que música que um dia ouvimos/ no coreto municipal/ de nossa cidadezinha.../ Não haverá cítaras nem liras/ - quem vocês pensam que eu sou? E os anjinhos estarão vestidos/ no uniforme da banda,/ com os sovacos bem suados/ e os sapatos apertando./ Depois, irei tratar da vida/ como eles tratam da sua...” Certamente atrás de alguma nuvem, ele terá sua cachacinha escondida.

Outro gaúcho, o Moacyr Scliar, conseguiu se eleger. Antes disso dirigiu uns torpedos contra os “imortais” que, pelo visto, medraram. Em 82 escreveu: “Por essa atitude (preservar um passado arcaico), a Academia paga um preço. Não é só o preço da alienação; é também o preço do isolamento, de assumir a impostura”. Quem sabe tenha faltado ao meu amigo Fernando Morais chutar o pau da barraca, como a dizer “dá licença que eu estou chegando”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

Comentários

Comentários