O fluxo de dinheiro extra em dezembro, após um ano de vendas baixas, fez com que o comércio antecipasse as tradicionais liquidações de janeiro. Com medo de ficar com sobras de Natal nos estoques e acabar oferecendo as mercadorias a consumidores sem dinheiro, as empresas estão em “guerra” para atrair o consumidor. Nessa disputa vale tudo: desde prazos maiores e descontos que ultrapassam 30% a presentear o cliente com guaraná e panetone.
“Como nós estamos em período recessivo há vários anos, principalmente neste ano, que teve queda de vendas em todos os meses em relação aos meses do ano passado, o comércio fica cada vez mais agressivo num bom sentido, vai disputar o cliente cada vez mais”, afirma o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Bauru (Sincomércio), Walace Garroux Sampaio. Segundo ele, o consumidor tem a intenção de destinar a segunda parcela do 13.º salário à compra de presentes. A primeira foi para pagar as dívidas.
O comerciante Marcos Rigoni é um exemplo dessa prática de comércio mais “agressivo”. Há 15 anos no setor de confecções, ele conta que este foi o primeiro ano em que transferiu o saldão de janeiro para dezembro - os resultados, segundo ele, estão sendo satisfatórios. “A gente entendeu que é melhor baixar os preços agora do que em janeiro, e normalmente é o contrário”, diz.
Rigoni conta que disponibilizou cerca de 400 peças, entre novidades e itens de estoque, com descontos que variam de 20% a 33%. “O consumidor não se permite mais ser enganado. Não adianta ter uma oferta ilusória: o desconto tem de ser real e o produto precisa ter qualidade”, afirma.
O objetivo de Rigoni é desovar as mercadorias antes que o espírito de Natal e o dinheiro do 13.º salário desapareçam da praça. A preferência é fazer vendas à vista - mesmo porque, diz o comerciante, o consumidor não quer começar o ano novo com contas a pagar. “Esse desconto que eu estabeleci permite que o consumidor pague à vista”, diz.
Para o presidente da Associação de Empresas do Calçadão (AEC), Francisco Alberto De Bernardis, a situação delicada do comércio neste ano favoreceu um acirrameto da disputa entre empresas, algo que ele observa já há algum tempo. “A gente percebe essa movimentação de antecipação desde 2001. Qualquer promoção, seja do Natal, de inverno, de verão, se antecipou”, afirma.
Segundo Bernardis, o principal chamariz de vendas são as oportunidades de pagamento mais “leves”, ou seja, juros menores e prazos maiores. “As empresas estão oferecendo as condições que der para fazer, porque o fluxo de dinheiro neste momento é assim: o que vendeu, vendeu. O que não vendeu, vai ficar só para outra ocasião”, diz.
Guaraná e panetone
A comerciante Renata Tebet conta que qualquer data comemorativa do ano é oportunidade para lançar uma promoção. No início do mês, sua loja oferecia uma lata de guaraná a cada compra, além de um “prêmio” maior no caso de compras acima de R$ 300,00: seis latas e um panetone – “da melhor qualidade”. Só nessa promoção foram mais de 1.000 guaranás.
“A gente já deu champanhe, já deu vinho, refrigerante, por ser Natal a gente deu panetone”, afirma Renata. Segundo ela, a loja, há mais de 30 anos em funcionamento, já é conhecida por essa característica. “Foi um sucesso: foram só três dias e o pessoal vem até aqui, pergunta quando vai ter outra promoção”, conta.