Fome e carências afetiva e material não têm dia nem hora certos para acontecer. Apesar disso, a época de festas é o período em que mais a sociedade se sensibiliza com as mazelas da população carente, intensificando atividades voluntárias.
A solidariedade chega a favelas e bolsões de pobreza de diversas formas. Uns fazem doações de alimentos e cestas básicas, outros arrecadam brinquedos e roupas ou, ainda, oferecem refeições na véspera de Natal.
Na avaliação da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), Bauru é uma cidade bem provida de cidadãos engajados com os problemas sociais locais.
Caminhando pelos bairros, não é difícil encontrar pessoas reconhecidas pela vizinhança como grandes voluntárias. É o caso de Geraldina de Brito, que tem 50 anos e mora no Parque Real.
No final de ano, a alegria dela consiste em fazer um almoço de Natal para uma comunidade carente de mais de 200 pessoas.
Geraldina, que foi cozinheira durante três décadas, realiza o almoço há 11 anos. Neste ano, o evento foi realizado no sábado, dia 20 de dezembro, no Centro Comunitário do Parque Real.
A voluntária, que está desempregada, enfrentou dificuldades para arrecadar alimentos e teve de comprar todos os ingredientes com as últimas economias do marido, que trabalha como pedreiro. Apesar das dificuldades, ela conseguiu oferecer à comunidade arroz, farofa, maionese e macarronada.
“Eu compro tudo, mas desta vez eu queria que as pessoas doassem um pouco. Foi um ano difícil para todo mundo. A gente pegou o último dinheirinho que tinha para fazer o almoço”, conta.
Além da refeição, os participantes também tiveram direito a bolo e presentes para as crianças. “Tem Papai Noel e tudo. Eu faço isso porque, nessa época, as crianças ficam jogadas, ficam na rua, sem comida”, diz.
Geraldina é conhecida na favela do Parque Real por fazer remédios caseiros. Ela conta que se sente bem ajudando quem precisa. “É gratificante. Faço várias coisas para ajudar. Eu tenho o sonho de fazer uma casa e abrigar muitas crianças”, revela.
O almoço de Geraldina é realizado duas vezes ao ano - uma no Natal e outra no mês de setembro, quando ela comemora seu aniversário. “Setembro é meu aniversário e eu fico muito sozinha. Então eu faço”, justifica.
Sopa
Moradores carentes dos arredores da Vila Dutra também tiveram almoço de Natal graças à iniciativa de Rosemary Lopes, que coordena a Casa da Sopa.
Para promover a festa, ela contou com doações da comunidade e empresários de Bauru. Vencendo as dificuldades, Rosemary preparou arroz à grega, maionese, farofa e frango assado para 300 famílias.
A festa, com direito a Papai Noel, foi realizada na quadra 2 da Alameda Ponta Porã, no dia 24 de dezembro, às 16h.
Este foi o quinto almoço de confraternização promovido pela Casa da Sopa. De acordo com Rosemary, a adesão é crescente ano-a-ano. “Comecei com 30 famílias. Agora já são 50 voluntários e 300 famílias”, enfatiza.
Ela conta que, ao ver a reação das pessoas que recebem a comida, os voluntários ficam emocionados. “A maioria do pessoal recebe com lágrimas porque não tem realmente o que comer. Parece que a gente dá para a pessoa certa, na hora certa. Todos os voluntários voltam com lágrimas nos olhos”, reforça.
O trabalho da entidade começou com almoços natalinos, mas ampliou-se e hoje em dia as famílias recebem comida diariamente. Moradores de diferentes bairros percorrem quilômetros para buscar a sopa.
Entre eles estão pessoas do Jardim Prudência, Jardim Andorfato, Núcleo Nova Esperança, Núcleo Fortunato Rocha Lima, Parque Leão 13 e Parque Santa Cândida.
“A gente viu que não adiantava fazer só no Natal. Tínhamos que fazer todos os dias. Fome não existe só no Natal. É todo dia”, diz.
A coordenadora da Casa da Sopa destaca a importância do trabalho social realizado no município. “Bauru é uma cidade muito organizada na área de filantropia. Tem organizações muito bem estruturadas e várias iniciativas muito boas. Mas eu ainda acho que precisa mais”, avalia.