Além de atrair milhares de estudantes de outras cidades todos os anos, o câmpus local da Universidade Estadual Paulista (Unesp) é responsável por injetar anualmente um montante de R$ 45 milhões no município. Os dados fazem parte do livro “Impactos Econômicos e Financeiros da Unesp para os Municípios”, organizado pelo vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras do câmpus de Araraquara, José Murari Bovo.
De acordo com ele, compõem esse total os recursos do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), as despesas das fundações e as receitas próprias e de convênios. “A Unesp é diferente das outras universidades públicas pela sua distribuição geográfica”, salienta o professor.
A obra relata informações obtidas com duas pesquisas realizadas nos 14 câmpus da universidade nos anos de 1986 e 1991. Os dados obtidos demonstram a quantia movimentada pela instituição de ensino na cidade onde está instalada e a movimentação financeira propiciada pelos seus alunos, a maioria de outras cidades.
Como foi realizada com a mesma metodologia em dois anos distintos, foi possível também traçar um comparativo entre os períodos.
No câmpus de Bauru, um dos maiores da Unesp, com 23 cursos de graduação e cerca de 4,5 mil alunos, foram injetados R$ 45.956.763,86 em 2001, o que representou 42,24% da receita do município naquele ano. “Os números apresentados demonstram que, nesses cinco anos, os impactos econômicos da Unesp no município ampliaram-se consideravelmente, evidenciando seu caráter dinâmico”, conclui Bovo.
Nos últimos anos, esses efeitos foram ampliados devido à obtenção da autonomia financeira das universidades públicas paulistas. Elas passaram a ter direito a um percentual na arrecadação do tributo, que passou de 8,4% em 1989 para 9,57%.
Vale lembrar que, além desses recursos, a Unesp possui outras fontes financeiras, como as receitas próprias, os convênios e o montante que entra por intermédio das fundações.
No caso de Bauru, o livro mostra alguns dados referentes a 2001. Na ocasião, 96,36% dos recursos financeiros do câmpus foram provenientes do ICMS. As receitas próprias e de convênios totalizaram R$ 1.369.133,75.
Alunos de fora
A movimentação financeira da Unesp no município fica visível aos moradores da cidade, principalmente, no que diz respeito à chegada de estudantes de outras localidades.
De acordo com o diretor da Faculdade de Ciências do câmpus de Bauru, José Brás Barreto de Oliveira, estima-se que 70% dos alunos da instituição sejam de fora. “Por ser uma universidade pública, a Unesp tem essa característica de atrair estudantes de outras cidades”, frisa.
Ao chegar em Bauru, a primeira providência tomada pelos universitários é procurar um lugar para morar. Segundos os dados da pesquisa, em Bauru os estudantes reservam 27,57% dos seus gastos para despesas de aluguel. Em segundo lugar vem a alimentação, com 20,20% e, logo em seguida, o transporte, com 16,93%.
Um ponto a se destacar é que, além dos itens básicos, muitos alunos investem em cursos de aperfeiçoamento, em lazer, em compra de material didático, entre outras coisas.
A universitária Bruna Uehara, por exemplo, diz que gasta uma média de R$ 800,00 por mês para sua manutenção na cidade. “Esse total inclui o aluguel, o condomínio, o transporte, as compras no comércio da cidade e o lazer”, explica.
Aluna do 4.º ano do curso de comunicação social, ela conta que também procurou melhorar os seus conhecimentos, investindo em cursos de idioma. “Eu cursei inglês e espanhol aqui”, diz.
As imobiliárias descobriram, há cerca de dez anos, o potencial financeiro desse filão. A corretora de imóveis Sandra Campos explica que as imobiliárias se preparam o ano todo para receber os estudantes. “O nosso ‘dezembro’ ocorre em fevereiro e março”, diz, fazendo uma comparação com o mês de pico do comércio.
Ela salienta que a Unesp representa 50% das locações realizadas pela imobiliária na qual trabalha. “Os outros 50% são distribuídos entre as outras faculdades”, ressalta.
Segundo os dados levantados pelo livro “Impactos Econômicos e Financeiros da Unesp para os Municípios”, em 2002 os alunos da Unesp gastaram R$ 6.932.197,89 com locação de imóvel na cidade.
Alimentação
O setor de alimentação também tem nos estudantes da Unesp um bom público consumidor. Morando longe das famílias, muitos preparam a própria refeição, outros optam por comer fora ou comprar marmitex.
Ricardo Patrize, proprietário de um restaurante nas imediações do Bauru Shopping - tradicional reduto de universitários -, diz que 25% do movimento é proporcionado pelos estudantes. “A maioria é da Unesp”, frisa.
As empresas de ônibus não têm números nem estimativa para demonstrar a importância dos estudantes em seu movimento diário. Mas de acordo com a assessoria de imprensa da Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb), há uma queda significativa de passageiros na época de férias.
Os estudantes permanecem uma média de quatro anos em Bauru, período em que estão cursando a universidade. Mas uma grande parte acaba fincando raízes no município, iniciando-se em sua profissão e investindo na cidade.
É o caso da empresária Angélica Santini. Ela veio para Bauru em 1992, quando passou no vestibular para relações públicas na Unesp. “No segundo ano de curso, consegui estágio em uma empresa de grande porte e, daí para frente, a minha carreira deslanchou”, diz.
Ela permaneceu cinco anos na companhia e, ao sair, montou seu próprio escritório de comunicação. “Acabei casando, tendo uma filha e desistindo da idéia de ir embora de Bauru”, salienta.
Atualmente, ela se considera uma verdadeira bauruense e acredita que a cidade ofereceu condições suficientes para que ela crescesse e se desenvolvesse.