A preferência dos alunos pelos cursos diurnos em detrimento dos oferecidos à noite é cada vez mais evidente nas escolas estaduais de Bauru. O número de estudantes do ensino médio que freqüentam o período noturno caiu 31,6% em cinco anos. O esvaziamento das classes à noite é ainda mais radical no ensino fundamental: elas deixaram de existir a partir deste ano devido à falta de interesse dos estudantes.
Simultaneamente, cresceu a quantidade de adolescentes nas salas diurnas, que em 2003 concentraram a maioria dos matriculados na rede estadual. Em 99, pouco mais de 63% dos adolescentes freqüentavam o 2.º grau à noite.
Os números contrastantes são atribuídos especialmente às classes de aceleração, que estão corrigindo o fluxo de alunos com faixa etária mais alta nas salas de aula. O período noturno normalmente é escolhido pelo estudante mais velho que precisa trabalhar durante o dia.
“Desde 1996, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), os alunos que estão com a idade defasada freqüentam as classes de aceleração ou as suplências (cursos de supletivo para jovens e adultos). Como as faixas etárias estão adequadas, os alunos são mais novos e muitos não têm idade para trabalhar”, explica a dirigente regional de Ensino, Marilene Guerrero.
De acordo com Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a partir dos 14 anos, o adolescente pode desenvolver atividades profissionais apenas como aprendiz, desde que estude no período contrário, informa a dirigente.
“Só fica no noturno quem precisa trabalhar. Tem gente que desde essa idade já é arrimo de casa”, reconhece Guerreiro.
Belchior Santino da Silva é um deles. Ele concluirá a 3.ª série do ensino médio em 2004 à noite porque trabalha durante o dia num supermercado da cidade. Na casa dele, todos estão desempregados.
“Quando eu não precisava trabalhar, estudava pela manhã. Prefiro estudar à noite porque as pessoas são legais”, diz. Mas se dependesse só da vontade da mãe dele, o rapaz de 18 anos continuaria freqüentando as escola no período diurno.
Qualidade
Na opinião dela, o ensino à noite é mais fraco que o oferecido durante de dia. “Pela manhã, ele está com a cabeça mais descansada e aproveita mais a escola. Ele mudou o horário porque queria trabalhar, só que agora não dá mais para escolher porque vivemos com o salário dele”, conta Vilma Maria da Silva. Ela está sem emprego, assim como o marido.
A dificuldade de encontrar espaço no mercado de trabalho também é apontada como um dos fatores que favorece o esvaziamento das salas à noite. Para a diretora de escola e membro do conselho estadual da Apeoesp (sindicato dos professores), Maria José dos Santos, o desemprego tem levado alguns alunos a freqüentar as aulas pela manhã.
“Como não está fácil (encontrar vagas no mercado de trabalho), os alunos optam pelo diurno, que tem carga horária maior (200 horas aula a mais) e por isso oferece mais chance de aprendizagem. Além disso, com o aumento da violência, os pais fazem um pouco mais de sacrifício para manter seus filhos durante o dia na escola”, ressalta Santos.
Ela também acredita que as classes de aceleração sejam as principais responsáveis pela inversão de preferências. Pensa da mesma maneira a professora de história Maria Aparecida de Oliveira Santini, para quem é mais interessante dar aulas à noite.
“O aluno (do noturno) já vai com um objetivo definido. O do diurno, você tem que lembrá-lo sempre sobre a importância da educação”, justifica. Porém, ela também destaca que durante o dia é mais fácil desenvolver os assuntos da grade curricular porque a carga horária é maior. “Dependendo da localização da escola, mais de 70% dos alunos do noturno trabalham”, conclui.
Já Lucas Roberto dos Santos, 16 anos, que cursará no próximo ano a 3.ª série do ensino médio, manteve as aulas pela manhã mesmo trabalhando, porque na opinião dele, as aulas são mais “puxadas”.