Perspectivas 2004

Globo Filmes se prepara para lançar desenhos e documentários

Sílvia Herrera
| Tempo de leitura: 5 min

A magia da telona não se perdeu no 3º milênio. Ao contrário, tomou novo fôlego e fez os brasileiros saírem de casa para conferir os lançamentos nacionais. A qualidade dos roteiros e da tecnologia conquistaram o público. Este ano, 20 milhões de brasileiros foram assistir aos filmes nacionais. E entre as 30 estréias brasileiras do ano, as três mais vistas - “Carandiru”, “Lisbela e o Prisioneiro” e “Os Normais”- são da Globo Filmes, núcleo independente da Rede Globo que já pode ser chamada de Hollywood brasileira. “Este caminho da colheita fantástica de 2003 é resultado do investimento em vários projetos há 4 e 5 anos. E em 2004 ainda teremos muitos projetos desta safra”, destaca Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da Globo Filmes. Para 2004, a empresa começa a investir em documentários, desenhos animados e também filmes com orçamentos menores.

Os primeiros sinais da retomada apareceram logo no ano 2000, quando foram lançados 24 filmes e mais de 7 milhões de pessoas conferiram os longas nacionais, um número 25% superior ao do ano anterior. De lá para cá os números só cresceram, embalados por “Cidade de Deus” e “Carandiru”. O cinema nacional entra em 2004 com razões de sobra para comemorar. Segundo dados da Secretaria do Audiovisual, 20% dos lançamentos do cinema foram brasileiros. Não se via nada igual desde a época de ouro dos anos 70, quando foi lançado “Dona Flor e Seus 2 Maridos”, ainda o filme mais visto, com quase 11 milhões de espectadores.

Antenada nas tendências mercadológicas, a Globo decidiu co-produzir os projetos tupiniquins e criou há cinco anos a Globo Filmes. Na época, um estudo identificou que a bilheteria nacional poderia dobrar em três anos. A empresa apostou no mercado futuro e começa a faturar. Dos 3% de participação no mercado dos primeiros anos, agora a Globo Filmes detém 21%. â€œÉ uma responsabilidade pesada, e é muito fácil de perder o mercado”, assume o risco Rodrigues.

Um dos responsáveis direto de tanto sucesso é o diretor artístico Daniel Filho, que soube muito bem escolher a quem se associar. “A virtude é ter um conjunto de projetos com temáticas distintas. Não ficamos calcados em um só tipo de filme, que foi uma evolução fundamental. Temos a Xuxa fazendo o mesmo dois milhões de sempre, ‘Cidade de Deus’(direção Fernando Meirelles) fazendo 4 milhões e pouco, e uma comédia romântica como ‘Lisbela’ (direção Guel Arraes) fazendo três milhões e pouco”, destaca Rodrigues.

Monopólio

Os filmes com o carimbo da Globo caíram no gosto do público. Por causa deste sucesso e por ser a produtora das Organizações Globo, alguns cineastas, como Ruy Guerra e Walter Salles, já vieram a público defender a tese que a Globo Filmes estaria criando um monopólio. “Monopólio de que?”, indaga Rodrigues. Ele explica que dos 30 filmes lançados este ano, apenas dez são da Globo, que detêm 92% da audiência. “Sei que tem mais de cem projetos rondando por aí, então não temos este monopólio. O problema é que o público esta referendando nossos filmes. Pode ser o monopólio do gosto do público”, argumenta. E completa: “O crescimento da Globo Filme não foi por um monopólio mas por profissionalismo.”

Ele explica que a Globo Filmes é uma produtora e não participa do processo de captação de filmes. Ele revela que Fernando Meirelles (cineasta de ‘Cidade de Deus’) conseguiu captar apenas cerca de 20% do total do filme e bancou o resto do bolso. “A Xuxa, com ou sem a Globo Filmes, vende. Ela tem uma estrutura própria para vender as quotas de patrocínio”. Ele explica também que os anúncios nos intervalos do “Jornal Nacional” na véspera das estréias são pagos pelo distribuidor, não é um brinde da “Globo” como muitos pensam e nem é vendido a “preço de banana”. “Acreditamos que se os distribuidores investem em massa nos EUA por que não investiriam aqui? Fazemos isso para dar uma educada no mercado brasileiro.”

Segundo a lei do Audiovisual, uma rede de TV brasileira pode ser co-produtora do filme e deter no máximo 49% das ações do empreendimento. E Rodrigues não vê a hora das outras emissoras entrarem no mercado. “Somos uma empresa de capital nacional e não temos nenhum tipo de incentivo fiscal enquanto os distribuidores estrangeiros têm. Acho que o governo poderia estimular mais para que surjam a ‘RedeTV’ Filmes, a ‘Record’ Filmes, o ‘SBT’ Filmes”.

Em 2002, a Globo Filmes recebeu um volume muito grande de roteiros. “Sempre leio todos”, afirma Daniel Filho. Mas para aproveitar o bom momento da retomada do cinema, a empresa saiu em busca de projetos já filmados ou em fase final de filmagem, para exibir este ano. “Neste lote veio ‘Deus é Brasileiro’, ‘Homem que Copiava’ e ‘Caminho das Nuvens’. Cada filme tem uma história e cada um deles tinha um atrativo, uma razão para participarmos”, conta Rodrigues. Mas para 2004 a história é outra. “Nossa missão daqui para frente é mais firme no propósito de participar mais, vamos entrar em filmes onde a gente de fato possa contribuir mais porque os filmes onde entramos de fato com a co-produção tiveram resultados melhores”, destaca o executivo.

A Globo Filmes não quer ser confundida com a emissora de TV. “Não vamos mais nos associar a projetos que nos vejam apenas como um bureau de divulgação. “Existem alguns diretores que não conhecem a nossa forma de trabalho. Pensam assim – quero fazer o filme que eu quero fazer e usar a mídia que eles têm para divulgar. Isto não é uma parceria ou um desenvolvimento conjunto. Isto é um formato de trabalho com o qual não queremos trabalhar mais”, avisa.

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