Bairros

Artistas anônimos

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 5 min

Se a cena cultural de Bauru parece muitas vezes apagada, não é por falta de talentos. Inúmeros artistas escondem-se em diversos bairros de Bauru, do Centro à periferia, e nem sempre conseguem realizar o sonho de sobreviver da arte.

São artistas plásticos, músicos, dançarinos, artesãos, compositores, poetas e escritores, entre outros. Eles reclamam incentivos do poder público aos profissionais que estão às margens do mercado e nutrem a esperança de mostrar seus trabalhos ao grande público. Nas próximas páginas, você vai conhecer alguns deles.

O secretário municipal de Cultura, Sérgio Losnak, afirma que é difícil viver de arte em Bauru. “Até mesmo para profissionais de tempo de carreira”, diz.

Num barraco localizado na favela do Parque Jaraguá, a equipe do JC nos Bairros encontrou o artesão João Félix da Silva Segundo e conheceu as delicadas peças que ele confecciona com os poucos recursos de que dispõe.

São recipientes de vidro coloridos a tinta e enfeitados com flores de biscuit, objetos feitos com folhas de jornal e garrafas plásticas de refrigerante, entre outros.

João sofre de doença respiratória e cardíaca. Nem por isso deixa de vender pelas nas ruas os doces que trazem o sustento da casa. “Tem dia em que eu vendo R$ 2,00, tem dia em que eu vendo R$ 3,00, tem dia em que eu vendo R$ 5,00”, conta.

Mas o que ele queria era vender artesanato. “Eu não vendo bem porque eu não tenho dinheiro para comprar material. A tinta plástica é muito cara. Um quilo de amido de milho (para fazer biscuit) é caro”, lamenta.

Outro sonho de João era ser cantor. Os problemas respiratórios, entretanto, o impedem de cantar. “Não deu. Agora, eu tenho o sonho de fazer meu próprio trabalho (de artesanato) para vender e viver disso”, revela.

O interesse do morador do Parque Jaraguá pelo artesanato surgiu há cerca de dois anos. Quando passava em frente a uma loja, pedia pedaços de espelhos quebrados e começou a reaproveitá-los. Aprendeu a confeccionar peças com folhas de jornal e começou a trabalhar com isso.

Quando soube da escola de artesanato do Núcleo de Apoio Sócio-Familiar (NAF) do Parque Jaraguá, se inscreveu e começou a freqüentar as aulas. Nesse período, vendeu sabonetes artesanais e outras peças.

“Agora, preciso de material para confeccionar novas peças. Às vezes, acho tinta velha na rua e tento recuperar”, conta.

Cerâmica

Bem pertinho de João, no Parque Santa Edwirges, mora a artesã Iara Maria Drobinich Nunes. Iara também começou a trabalhar na área quando conheceu os cursos do NAF, há cerca de três anos. “Vi que dava certo”, diz.

Ela começou com sabonetes artesanais e velas natalinas e, há cerca de três meses, confecciona peças em argila. “Eu adoro. Depois que eu comecei a mexer na argila e que saíram coisa, que eu criei, achei legal. Eu vi que era muito bom”, descreve.

Natural de Recife (PE), Iara já conseguiu incluir suas peças na exposição “Cerâmicas”, realizada no mês de dezembro no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”. “O pessoal elogiou muito. É maravilhoso quando a gente faz um trabalho que dá certo. Eu pensei que nunca iria conseguir”, confessa.

Atualmente, ela já se considera uma profissional do ramo. Como tem que cuidar dos filhos, Iara trabalha em casa, mas já está vendendo seu artesanato. A formatura da filha, por exemplo, foi paga com o dinheiro ganho com as velas decorativas. “Dá para complementar a renda”, afirma.

“Eu vou começar a fazer alguma coisa para que eu possa ajudar no orçamento de casa”, emenda.

A próxima meta de Iara é montar um espaço para vender os produtos. “Eu conversei com o meu marido e a gente está pensando em abrir um balcão para começar a trabalhar com argila”, observa.

Na opinião da artesã, existem muitos artistas em Bauru que estão em situação semelhante à sua. “Eu acredito que tem muita gente que cria alguma coisa, está começando, e ainda não teve oportunidades”, diz.

Designer formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Juninho Madureira, 30 anos, é outro artista que luta para mostrar sua arte Bauru afora.

Ele trabalha com peças de marchetaria e, vencendo obstáculos, faz disso sua principal fonte de renda. “Estou tentando vencer isso, mas está difícil. Em geral, as pessoas não vivem disso. É renda extra”, afirma.

Embora exponha seus trabalhos na feira Ubá, realizada mensalmente no Parque Vitória Régia, Juninho avalia que faltam mais espaços públicos destinados à arte em Bauru.

“Desestimula mas, no geral, está melhorando. A Secretaria de Cultura até tenta e tem boa vontade. Mas eu acho fraca essa parte de incentivo. Tinha que ser mais aberto para (o artista) ocupar os espaços públicos”, sugere.

Na opinião do designer, a Ubá deveria ser realizada todos os finais de semana. “Deveríamos ter mais lojas e feiras com produtos artesanais locais. Em Bauru, é difícil porque a cidade não tem tradição de consumir arte”, avalia.

Outra sugestão é que os artistas locais reúnam-se em organizações que fortaleçam seus trabalhos. “Sou anônimo porque meu trabalho fica restrito.”

Otimista, o artesão espera que a Lei de Estímulo à Cultura, aprovada em 2003, estimule projetos locais.

Educação

Atividades como artesanato são bastante procuradas por pessoas que querem complementar a renda familiar. Os cursos de geração de renda promovidos pela Secretaria Municipal de Educação (SME), por exemplo, apontam para isso.

Renata Rafael Dainesi, da SME, diz que o público-alvo dos cursos são professoras e diretoras da rede municipal de ensino. “É uma maneira de descontrair e até ganhar um dinheirinho extra”, diz.

Eles são bimestrais e abrangem temas como bordado em toalha, confecção de sabonetes e fontes artesanais.

“As professoras trabalham com isso em casa, no geral. Quase todas as atividades que são dadas aqui elas aproveitam ou na escola, com os alunos, ou para conseguir uma renda extra”, expõe Renata.

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