Lá se foi 2003. Faltou muito para a esperança vencer o medo. O libertar da língua presa produziu metáforas e boas intenções, coisas insuficientes para se construir uma nação mais justa. Diferente de Demóstenes, que era gago e se transformou no maior orador da história antiga, o presidente Lula não passou da caricatura. Todas as manhãs, com três pedrinhas na boca o grego fazia exercícios diante do mar. Tentava falar mais alto que o barulho das ondas. A cada impacto nas rochas aumentava a potência da voz como forma de se impor perante a natureza. Descobriu mais tarde que de nada adiantava berrar com um discurso sem conteúdo. Também de pouco valia igualar-se a Cícero que até extasiava as platéias com suas figurações (Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?), mas não conseguia convencê-las à ação. Demóstenes aposentou as metáforas e assim foi capaz de mobilizar o povo grego em torno de idéias comuns, com a força das palavras. A multidão se punha em marcha quando Demóstenes falava.
Questões como as do emprego e da renda, da habitação e da terra, das contas públicas e da infra-estrutura precisam ser efetivamente enfrentadas com ação política e gerencial e não com jargões futebolísticos. Reconheçamos que o Brasil entra em 2004 com a expectativa de que o ano será melhor. As potencialidades do país – econômicas, sociais, políticas e até culturais terão a chance de expandir-se. Há uma esperança nacional de que, coincidindo com as expectativas geradas pela mudança do calendário, o Brasil consiga acelerar o ritmo de crescimento da economia, da redução das desigualdades e na solução dos problemas de seus cidadãos. A busca de um país mais justo. Se fosse para usar de metáforas com coisas sérias então seria melhor partir logo para o deboche: “Justo é o sutiã, que oprime os grandes, levanta os caídos, protege e disfarça os pequenos.”
Apesar do crescimento pífio e da dificuldade de avançar no campo social, o ano passado não pode, por isso, ser considerado perdido. A nação está (quase) pronta para voltar a desenvolver-se. A eleição municipal, que dominará o mundo político em 2004, não deverá reacender dúvidas e inseguranças, mas, ao contrário, ser uma forma de amadurecimento democrático. A sociedade evoluiu e não tolera mais os corruptos. Este ano será o da assepsia. A Controladoria Geral da União sorteou 131 prefeituras para visitá-las e 93% apresentavam irregularidades. Com base nesse trabalho, estima-se que 30% do que é repassado aos prefeitos se esvaem nos ralos da corrupção. Somadas as 5.559 prefeituras a conta final seria de R$60 bilhões anuais, ou o equivalente a três arrecadações da CPMF. Ou quase todo o déficit em um ano do sistema previdenciário. Isso precisa acabar. E vai acabar. O próximo prefeito terá que ser alguém confiável e que também tenha credibilidade perante os governos do Estado e Federal, o suficiente para passar a certeza de que recursos extras serão bem empregados.O Banco Mundial tem bilhões de dólares para financiar bons projetos nos Municípios e não consegue por falta de prefeitos críveis. Não importa se os erros factuais sejam produzidos pela má-fé, incompetência, inabilitação técnica, deficiência de infra-estrutura ou má-sorte O importante é que a Controladoria Geral da União, as Câmaras Municipais constituídas de vereadores honestos e o próprio Ministério Público cumpram o seu papel de fiscalizar os gastos públicos e contem com o apoio da sociedade. Vale também para magistrados trapaceiros. Acusado de vender sentenças a traficantes, juiz de Brasília foi “punido severamente” pelas regras cruéis do corporativismo: ganhou de presente de Natal uma aposentadoria de R$15 mil. Prova de que a Justiça só é cega quando não quer mesmo ver. O país do futuro precisa trocar de slogan para transformar-se em nação do presente. Para isso é preciso acreditar e agir em favor da ética. Todos os que viajam neste barco estão convocados a remar a favor. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)