Cultura

Embaixador da f

Cristiane Goto
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Se dependesse do esforço do morador bauruense Antônio Correia, 65 anos, a Folia de Reis faria parte do calendário das festividades obrigatórias do município, sendo lembrada como uma das mais importantes expressões da cultura popular brasileira. Mas, infelizmente, não é o que acontece.

Ao contrário de tradições importadas de outros países, como o Halloween - a festa americana em homenagem ao dia das bruxas e lembrada no Brasil por estudantes de escolas de idiomas - a cada ano diminui o número de paulistas que se interessam em comemorar a Folia de Reis, a festa dos devotos católicos para o Menino Jesus. Segundo Correia, o problema pode estar ligado à falta de religião.

Em Bauru, Correia é coordenador do grupo Folia de Reis, o único da cidade. Existente há mais de cinco anos, o grupo conta atualmente com apenas oito integrantes, que de dezembro a janeiro saem às ruas carregando a bandeira com a representação dos três Reis Magos e cantando músicas em homenagem ao Menino Jesus. Os bairros Nova Esperança, Vista Alegre e Santa Cecília são alguns pontos que receberam a visita do grupo de Folia de Reis durante esse período.

Além de louvar, os cantores recolhem alimentos e prendas para as comemorações do Dia de Santo Reis, celebrado hoje. A festa será realizada na casa de Correia, localizada no núcleo Bauru 16. Ele participa das festas da Folia de Reis há meio século, desde sua infância, fato que o transformou em uma espécie de “embaixador da fé” na cidade.

Correia afirma que, embora algumas pessoas não se interessem, as comemorações dessa crença católica jamais deixarão de existir. Em entrevista ao Jornal da Cidade, ele fala de sua grande devoção a Jesus e sobre sua luta em preservar os costumes brasileiros. Confira os principais trechos a seguir.

JC - Por que a Folia de Reis deve ser considerada uma data importante?

Correia - Quando Jesus nasceu, os primeiros a visitarem o menino foram os três Reis Magos. Não é uma coisa que estamos inventando. É uma benção de Deus e Ele é que nos ilumina.

JC - Acompanhar as festividades da Folia de Reis é uma tradição familiar?

Correia - É. A Folia era seguida pelos meus avôs e bisavós, de geração em geração, é raiz, está no sangue. Começou com meu bisavô, que morava em Minas. Eu também sou mineiro e desde lá, todos os anos, eu sigo a Folia de Reis. Participo desde 8 anos de idade e nunca parei de cantar, enquanto minha perna agüentar, eu continuo.

JC - O senhor coordena o único grupo de Folia de Reis da cidade. Por que existem tão poucas pessoas que se interessam por essa tradição?

Correia - Está difícil porque o pessoal não tem muita religião, e muitos não agüentam porque andamos a noite inteira, começamos por volta das oito horas da noite e aí passamos nas casas, cantando a noite inteira, só voltamos na manhã do dia seguinte. É muito difícil alguém nos acompanhar, largar tudo e se dedicar à Folia. Eu mesmo tenho que correr atrás das pessoas para tocar e cantar.

JC - Os devotos dos Santo Reis costumam ser moradores de bairros populares? Por quê?

Correia - Sim. Os mais ricos só recebem as bandeiras em suas casas, eu acho que eles não têm tempo porque devem trabalhar muito. No grupo só existem pessoas de classe média ou mais baixa, igual a minha.

JC - Qual a faixa etária dos integrantes do grupo?

Correia - São pessoas mais velhas.

JC - Por que o senhor acha que os jovens não seguem essa tradição?

Correia - Eles não têm essa raiz como eu.

JC - Como o senhor vê a tradição americana do Halloween, que está fazendo sucesso hoje em dia?

Correia - Isso não é uma religião, é mais comercial. E a molecada quer mais diversão, então é difícil os jovens seguirem a Folia de Reis, mas, por sorte, ainda existem aqueles que gostam.

JC - O que falta para que a Folia de Reis seja mais expressiva no Estado de São Paulo?

Correia - Religião e a preservação da cultura, porque se as pessoas acompanharem a cultura ou lerem a Bíblia, vão ver as origens da Folia.

JC - O senhor acha que essa tradição vai acabar um dia?

Correia - Não, ela vai melhorar, se Deus quiser. Santo Reis não nos desampara não. É tudo feito com humildade e de coração, então Deus sempre estará com a gente.

JC - Mesmo com todas as dificuldades, o senhor continua seguindo essa tradição. Por que?

Correia - Muitos perguntam se eu tenho algum fim lucrativo com isso, eu não tenho. Mas recebo muitas graças, meus filhos têm saúde e todos eles têm emprego na Espanha. Eu também tenho muita saúde, então isso é uma benção, uma coisa boa. Se uma pessoa acompanha a Folia certinho ela não vai roubar ou ficar só pelos bares.

JC - Como o senhor pretende perpetuar as comemorações da Folia?

Correia - Tenho nove filhos, entre 18 e 41 anos. Eles não seguem porque estão trabalhando na Espanha. Mas tenho 12 netos e alguns já estão se interessando. Então estou ensinando a eles esse costume.

JC - Qual a mensagem que o senhor busca levar com a Folia?

Correia - Muita paz, saúde e alegria, sempre.

• Serviço

A festa em homenagem ao Dia de Santo Reis será realizada hoje, a partir do meio-dia, na rua Marcelo Mariuso, 1-60, no Núcleo Edson Francisco da Silva (Bauru 16).

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