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Esperança e caldo de galinha


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Com 2003, dentre outras coisas, foram-se as esperanças de melhores dias. A lamentação, quase sempre produto do primeiro impulso, ganha contorno dramático quando apoiada em fatos reais. Anualmente a mortalidade infantil diminui, a escolaridade e a média de vida aumentam, as pessoas têm mais acesso à informação, milhões conseguem conquistar este ou aquele benefício impensável na época de seus avós ou pais, ainda, assim, a sensação é que o mundo caminha, nas coisas e nos valores essenciais, para trás. As boas conquistas não logram superar absurdos e infelicidades produzidos pelo homem. São as guerras, a fome e a miséria, a ignorância, a violência urbana, crimes hediondos como os que vitimaram 12 crianças no Rio Grande do Sul.

Os construtores da civilização, responsáveis pelo calendário que remonta milênios, foram sábios quando estabeleceram a cada 12 meses um recomeço dando, assim, oportunidade e esperança de cumprir o seu papel. Em 2004, mais uma vez, esse bem divino será testado.

No Brasil, dona esperança terá muito trabalho. A euforia do mercado financeiro e do setor exportador contrasta com a dura realidade vivida pela maioria dos mortais deste País. São duas redomas onde vicejam dólares, tecnologia, empregos, etc. Fora dessas bioesferas, a realidade é o desemprego, a queda da renda familiar, inadimplência, violência, desespero, etc. É necessário, para a felicidade geral da nação, que essas diferenças sejam menores.

Na redoma financeira, diariamente, a mídia anuncia que a Bolsa de Valores bateu mais um recorde e que foram negociados bilhões em ações. Na seqüência, fala-se da queda do risco-país com destaque de fazer inveja a conquista de um campeonato mundial de futebol. A Colômbia, em guerra civil há 30 anos, tem seu risco na casa dos 400 pontos, mas para o Brasil o anúncio desse patamar foi como de um gol que decide um título. Por falar em título, o da dívida externa brasileira, C-Bond (bônus de capitalização), virou garoto propaganda de solidez financeira do País. Aliás, solidez que é a mesma do picolé vendido nos campos de futebol em dia de sol abrasador. E mais, a propaganda foi tanta que todos querem receber em C-Bonds. “Pô, valem mais ‘de’ 100%”.

Esses indicadores refletem a cartilha do FMI imposta ao Brasil conjugada com os juros baixíssimos praticados nos Estados Unidos, Europa e Japão, taxa de 1% a 2% ao ano. O Brasil continua, nessa área, o paraíso dos especuladores. Paga juros de 16,5% ao ano (taxa Selic). Real ou virtual, essa coisa toda faz parte do script das finanças internacionais, mas não é a salvação da lavoura. Não se tem notícia quantos empregos esse frenesi capitalista gerou ou quanto rendeu de tributos para o País. Prudência e caldo de galinha...

Os botocudos da planície precisam de empregos e salários. O mais próximo disso encontra-se na outra redoma, a da balança comercial (exportação e importação), que da chuva de recordes é o mais importante. A balança enfrentará, em 2004, dificuldades à medida que o País crescer e necessitar importar mais do que fez em 2003. A esperança na diminuição do desemprego reside num crescimento do Brasil a taxas acima de 4% do PIB.

Informado da pequena queda de sua popularidade, Lula tratou de passar ao seu ministério, no jantar de confraternização de Natal ao final do ano, o desejo apurado nas últimas pesquisas que o Planalto recebe quinzenalmente. O povo quer trabalhar, quer emprego. No cardápio do jantar constava caldo de galinha e vinho chileno Esperança. (O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, ex-deputado federal, ex-secretário da Agricultura e ex-prefeito de Bauru)

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