A rede estadual de ensino extinguiu a recuperação de férias, implantada em 1998 para corrigir as defasagens de conhecimento apresentadas pelo aluno no decorrer do ano letivo no sistema de progressão continuada. A partir deste ano, só está em vigor a recuperação paralela: o estudante é promovido e no ano seguinte freqüenta as aulas das matérias em que não conseguiu média, no período inverso ao das aulas regulares.
Criticada por parte dos professores na época de implantação, agora a própria Diretoria de Ensino reconhece que a proposta não estava atingindo os seus objetivos. “Muitos alunos não freqüentavam (as aulas de janeiro) porque iam viajar, entendiam como punição”, declara Jeani de Oliveira Cavalieri, supervisora da Diretoria de Ensino de Bauru. O fim do sistema de recuperação intensiva obedece a uma resolução da Secretaria Estadual de Educação de agosto de 2003.
Outro problema, aponta Jeani, é que as aulas na recuperação de férias eram ministradas por professores diferentes do que os alunos estavam acostumados durante o ano e, às vezes, menos preparados. Quase 5.500 alunos participaram da recuperação de férias de janeiro do ano passado na Diretoria de Ensino de Bauru, que tem cerca de 85 mil estudantes. O índice de aprovação foi de 89%.
Na opinião do vice-secretário do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Edmar Oga da Silva, a própria secretaria deve ter percebido que o sistema não funcionava. “A recuperação de férias era uma coisa absurda, uma aberração”, diz.
O período da recuperação paralela também foi estendido em 15 dias, para que os alunos possam completar o programa. De acordo com a supervisora, o fato da recuperação paralela de conteúdos da série anterior ocorrer concomitantemente ao da série em que o aluno está matriculado não deve prejudicar o aprendizado da criança ou do adolescente.
Isso porque, diz Jeani, o sistema de ensino não trabalha mais com “pré-requisitos”, e sim com “interpretação”. “Agora não existe mais essa questão de pré-requisito. A escola desenvolve em cima de habilidades, não fica presa, por exemplo, ao conteúdo do primeiro ano (no caso de estar no segundo)”, explica.
Quanto à aprovação no sistema, Jeani diz que o desempenho dos alunos será medido, entre outras coisas, pela freqüência na recuperação paralela e por um “mínimo” do conteúdo que será pedido. “É melhor do que o aluno ficar retido a uma série, como acontecia antigamente”, diz. E acrescenta: “De qualquer forma, ele precisa ter uma freqüência mínima”.
No pé
O estudante Thiago de Melo Romeiro, 14 anos, se prepara para o início das aulas do 1.º ano do ensino médio na escola estadual Santa Edwirges. Nas duas séries anteriores ele teve de passar pela recuperação de férias. Em janeiro de 2003, por exemplo, ficou de matemática e história. Na opinião dele, a professora das férias era “mais ou menos” igual à do ano letivo regular.
Thiago conta que não gostou de ter aulas no período em que seus amigos estavam de férias, mas acredita que conseguiu avançar nas disciplinas. “Deu para aprender mais um pouco. A maior parte do tempo era aula mesmo”, diz o estudante, que garante ter passado bem pela 8.ª série. A mãe de Thiago, Eunice Vieira de Melo Romeiro, acredita que a recuperação durante o ano letivo é melhor do que nas férias, pois faz com que os alunos dêem mais valor às aulas.
No caso do filho, Eunice conta que “está no pé” dele para que não tenha mais de passar por recuperação nenhuma até o final do ensino médio. “Eu acompanho, vou lá, vejo as notas, pego no pé dele. Os professores falam que ele é um bom aluno, é inteligente, não é bagunceiro, mas ele não gosta de estudar”, diz.
____________________
Apeoesp e pedagoga aprovam novo modelo
Edmar Oga Silva, vice-secretário da Apeoesp, diz que a entidade vê com bons olhos a recuperação paralela, desde que ela não seja uma “muleta”. “O momento mais importante é o da sala de aula, com professores que tenham bons salários, não tenham sobrecarga e que as salas estejam reduzidas. Assim a aprendizagem se torna mais eficaz”, argumenta.
Segundo o sindicalista, a possibilidade de ser aprovado automaticamente apenas freqüentando as aulas de janeiro fazia com que muitos alunos ficassem desestimulados. “Muitos alunos, senão a grande maioria, deixavam de estudar e falam na cara dura para os professores: ‘Ah, todo mundo vai passar de ano mesmo’”, conta. E completa: “Com a retirada da recuperação de férias, a tendência é aumentar o número de alunos freqüentes nas recuperações paralelas”.
Há, porém, alguns entraves com o modelo da recuperação paralela, na opinião de Silva. Um deles seria a necessidade do aluno ter de se deslocar duas vezes por dia para a escola. “Muitas famílias não têm condições de arcar com o passe de ônibus”, aponta.
De acordo com a pedagoga Ana Maria Lombardi Daibem, pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a recuperação durante o ano letivo, ao contrário daquela nas férias, envolve os alunos numa rotina de responsabilidade . “Não resta dúvida que um processo de ensino que se dá ao longo do tempo, desde que bem trabalhado, naturalmente surte mais efeito do que um processo pontual e centrado num período menor”, diz.
Para Ana Maria, o professor precisa estar atento ao conjunto da sala - ou seja, alunos com necessidades diferentes dentro do mesmo espaço - para não criar um processo artificial. “Se o professor chega, assume o programa e trabalha os temas desconsiderando o aluno que está ali, isso é o desastre que a gente está acostumado a ver”, conclui.