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A guerra dos dedos


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Cada homem, no fundo de seu coração, tem direito de julgar-se inteiramente igual aos outros homens. Depois de reconhecer este direito, em seu tratado sobre a igualdade, Voltaire retrata o cozinheiro do cardeal filosofando sobre as diferenças entre as classes do gênero humano: “Sou um homem como o cardeal; nasci chorando como ele, e ele morrerá como eu. Temos as mesmas funções animais. Se os turcos conquistarem Roma e se eu vier a ser cardeal e o cardeal vier a ser cozinheiro, eu o tomarei a meu serviço”. O solilóquio do cozinheiro entra bem na moldura da “guerra digital” que começou a ser vivida por dois contendores, um de perfil tecnológico, parecido com o exterminador do futuro, e outro, de feição rude, mais próximo ao matador do passado, que usa arsenal obsoleto para identificar invasores. Essa tal “guerra“ que o Brasil começa a travar contra os Estados Unidos, em retaliação à tomada de impressões digitais de brasileiros que desembarcam naquele país, não passará de mais uma batalha de Itararé, aquela que não houve. O argumento da soberania e da reciprocidade mexe com o orgulho nacional, mas não resiste à lógica que preside a organização das relações entre países num mundo globalizado, onde a probabilidade do cozinheiro trocar as posições de mando com o cardeal, convenhamos, são bastante remotas.

Antes de qualquer conversa, a questão central é: quem perde mais com essa forma de controlar a entrada de cidadãos em seus territórios, o Brasil ou os Estados Unidos? (...) No final das contas, o que sobra é uma queda de braço entre dólar e real. Se para milhares de brasileiros, o País foi à forra, mostrando aos americanos o que “é bom para tosse”, o constrangimento de deixar os dedos na tinta preta sem nem direito à assepsia completa, o que será colhido no fundo do cofre do orgulho resgatado, depois dos momentos de inflexão cívica, será um subtexto pinçado da bravura quixotesca contra moinhos de vento ou os enganos da tragicomédia shakesperiana “Muito Barulho por Nada”. (...)

O cenário mundial é povoado de Estados frágeis, que não conseguiram implantar as bases da soberania econômica, condição fundamental para a plena soberania política. Muitos Estados que se originaram de partilhas coloniais, alguns da África e do mundo árabe, constituem esboços débeis de Estados-Nações modernos, pois foram submetidos às depressões ditadas pela inserção dependente dos mercados mundiais. O que se vê é a extensão da velha lição: quem é dono da flauta, dá o tom. (...)

Sob essa argumentação, volta-se ao caso das impressões digitais. Não interessa ao Brasil expandir o acervo de dissensos com os Estados Unidos. Ao contrário, deveria transformar a crise em oportunidade. Entregar flores a americanos que chegam por aqui, informando que, lá no país deles, somos recebidos com os dedos na maquineta, é um gesto diferenciado de grande efeito. (...)

Por todas essas razões, é inimaginável que o Poder Executivo, na esteira da decisão de caráter populista tomada pelo juiz Julier Sebastião da Silva, do Mato Grosso, tenha tomado a iniciativa de avocar o princípio da reciprocidade, derrubando o esforço do prefeito do Rio de Janeiro para acabar com a exigência de americanos “tocarem piano” nas pranchetas da Polícia Federal. Só se compreende essa decisão sob a perspectiva de marketing. Lula esperava que, com a retaliação brasileira, Bush recuaria e os brasileiros passariam a entrar nos EUA com tratamento de primeiro mundo. Lula seria um novo herói nacional. Tudo, porém, não passou de um sonho dessas noites de verão.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político.

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