O frango com polenta do tempo dos nossos avós tinha um sabor inigualável. O segredo era a carne branca sem os aditivos convencionais do frango de granja. Carne consistente, de cor amarelada, feita com polpa de tomate, resulta em um molho com sabor carregado de “lembranças” da infância.
A procura pelo simples, natural e saudável tem levado muitas pessoas a trocarem o frango convencional pelo “caipira”. Essa parcela da população está movendo um novo mercado consumidor que cresce a cada dia.
Na pequena cidade de Fernão (50 quilômetros a Oeste de Bauru), na região de Gália, 20 criadores de frango caipira fundaram a Cooperativa de Agricultores Familiares de Fernão, com o intuito de alavancar o comércio da ave, criada no campo, sem confinamento.
O segmento procura opções comerciais para sair da rota regional e atingir os grandes centros. Engatinhando no setor, os pequenos criadores ainda precisam de um abatedouro e câmaras frias para armazenamento. Só assim eles atingirão o objetivo de chegar aos grandes centros.
A criação do frango caipira com esse objetivo é um projeto desenvolvido pelo Banco da Terra, com o apoio da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), em convênio com a prefeitura e o Estado, avisa o presidente da cooperativa, Altemar Canelada Campos.
Segundo ele, uma pesquisa recente revelou o perfil dos agricultores daquela região. “São pequenos agricultores que trabalham na propriedade com a família. Eles se encaixam no perfil de criadores de frango caipira, porque essa ave não pode ser criada em grandes extensões.”
A partir do estudo, iniciou-se o trabalho de preparação dos criadores. “Oferecemos orientação técnica e buscamos os fornecedores das matrizes, os pintinhos de uma raça que se adaptasse à nossa realidade.” A cooperativa deu força aos criadores na queda dos custos fixos. “Adquirimos os equipamentos e a ração em conjunto. O preço baixou, proporcionando uma queda no custo fixo e um aumento no ganho.”
Vislumbrando um futuro promissor, os criadores apostaram em uma embalagem que chamasse a atenção do consumidor em qualquer lugar que fosse exposto. Carregaram na cor e na imagem do frango.
Com tudo pronto, os criadores partiram para uma parceria com um abatedouro de Guarantã, explica o agrônomo coordenador do projeto Max Kend. “Fizemos uma integração entre vários produtores para o abate em conjunto. Para abater, é preciso ter uma quantidade mínima de 3.500 aves ou uma carga de caminhão, cerca de 5 mil.”
Marca
Tradição. Este foi o nome escolhido para ser estampado nas embalagens que vão acolher os frangos caipiras de Fernão. Apostando nos antigos costumes, os produtores de frango querem atingir o maior número de consumidores e fazer da criação de frangos o seu ganha “pão”.
O sabor da carne é o diferencial que tem que ser ressaltado, diz o técnico agrícola, Gerson Donizete Lima. “Os frangos vivem soltos. O fato deles andarem e tomarem sol faz com que aumente a consistência e a cor da carne. Eles não retêm gorduras.”
O sabor, segundo ele, é inigualável. “Os frangos são alimentados com ração isenta de hormônios de crescimento e com sobras de verduras, frutas e plantas. Uma alimentação alternativa.”
Festas
Na tentativa de promover o frango caipira, a cooperativa promove, constantemente, eventos para colocar a ave em evidência, explica Altemar Canelado Campos. “No final do ano passado, fizemos a 1.ª Festa do Frango Caipira. O frango caipira feito nas mais variadas formas foi a base da alimentação da festa.”
Mas o evento mais importante desenvolvido pela cooperativa, no ano passado, foi direcionado para uma comitiva de japoneses. “Fizemos um contato com uma agência exportadora que nos indicou os interessados.”
A comitiva esteve em Fernão e só não efetivou o negócio porque, para que o frango caipira chegue ao Exterior, é preciso a inspeção do Serviço de Inspeção Estadual e Federal (SIF).
Ecologicamente
A alimentação do frango caipira inicia-se com ração, isenta de hormônios do crescimento, explica o agrônomo Max Kend. “Com as quais as aves são alimentadas nos primeiros 21 dias de vida.”
Do 22.º dia em diante, os frangos passam a receber nova ração e comidas alternativas do próprio campo. Para prevenir a doença do Gumboro, que leva o frango à morte, eles são vacinados aos 15 dias. “A vacina não altera o sabor da carne”, garante.
O abate dos frangos caipiras pode ser feito a partir dos 70 dias. “Até os 90 dias de vida, enquanto o frango de granja é abatido de 40 a 45 dias, porque recebe hormônios do crescimento e fica confinado.”
Passeio
Comprar o frango caipira em Fernão é também fazer uma visita ao campo. Sem esquema de comercialização em série, os produtores aguardam a chegada dos consumidores em suas propriedades. O visitante vai em busca do frango mais saboroso e aproveita para curtir o campo, uma paisagem sempre agradável.
O produtor Sebastião Vitório Cestari e sua mulher Nair conseguiram vender 170 frangos caipira no final do ano, sem sair de sua propriedade rural. Uma placa indicativa na estrada que liga a rodovia João Ribeiro de Barros a Fernão chamou os consumidores.
Nair Cestari explica que o consumo regional é uma realidade. “Os clientes da região sabem onde encontrar o frango caipira. A maioria vem até aqui.” O frango vivo é vendido por R$ 7,00, enquanto o limpo sai por R$ 8,00. “Em janeiro há uma queda nas vendas porque já passaram as festas”, diz.
A venda do frango vivo é menor, avisa a produtora Rosália Davine. “São poucas as pessoas que levam o frango vivo. Algumas encomendam e vêm buscar depois, desde que esteja limpo.”