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Los Hermanos


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Recebo periodicamente, por correio eletrônico, mensagens a respeito de nossos vizinhos argentinos. Invariavelmente são agressividades a respeito de estereótipos criados em torno desses nossos irmãos mais ao sul. Sabe-se que, durante muito tempo, o povo argentino degustou o privilégio de viver envolto em padrões considerados de primeiro mundo. Bastava verificar a renda per capita ou o padrão de vida das pessoas, ou mesmo a invejável quantia de livrarias situadas em Buenos Aires para confirmar essa afirmação. O charme e luxo da capital argentina ainda hoje são famosos em toda a América do Sul. O requinte do tango e os famosos cassinos são alvo de incontáveis roteiros turísticos e luas-de-mel. Durante essa fase áurea, alcançada às custas de boas escolas, do comércio da prata, do gado de corte e do endividamento externo, grande parcela da população argentina se recusava a admitir que integrava a América do Sul. Consideravam-se cidadãos europeus e nos tratavam com desdém.

A partir da década de 80, o desdém se transformou em certa agressividade, talvez originada de uma intuição que previa a desgraça que se avizinharia. Em 1982, durante setenta e quatro dias, acreditaram poder derrotar a Inglaterra na Guerra das Malvinas. No final da década de 80 e início da década de 90, não mais podendo manter a pompa de realizarem viagens periódicas para a Europa, boa parte da classe média e baixa da Argentina passou a aportar em praias do sul do Brasil, aproveitando o alto valor do seu dinheiro em relação ao nosso. Traziam então algum dinheiro e muita confusão. O futebol ajudava a acirrar os ânimos e atingia escalas perigosas quando eles glorificavam suas vitórias de clubes na taça Libertadores da América (possuem muito mais títulos que nós...) e nós rebatíamos com nossa seleção tricampeã, quase tetra na época. A imprensa argentina, que agora já encontrava focos agressivos na imprensa brasileira, encarregava-se de alimentar a celeuma. O auge das hostilidades, bem me lembro, deu-se quando um jornal portenho estampou em primeira página “¡Qué vengan los macaquitos!”, referindo-se à contenda futebolística seguinte, que se daria entre brasileiros e argentinos. O fato mereceu intervenção diplomática, com direito a pedido de desculpas. A essa altura, boa parcela de nosso povo (confesso que aqui me incluía) já via os argentinos com ares de antipáticos inimigos.

O tempo, senhor da razão, gira o mundo e praticamente inverte a situação da economia dos dois vizinhos. Nos arredores da virada do milênio, uma crise de proporções avassaladoras atinge a Argentina, comprometendo suas instâncias sociais e abalando violentamente a classe política, cuja figura de maior representatividade era o rosto de Menem, o fanfarrão vaidoso, submisso aos interesses norte-americanos. Os ideais neoliberais, assim como em boa parte do mundo, já haviam dado conta de transferir o controle dos serviços essenciais à iniciativa privada, atando as mãos do estado e imputando severas conseqüências sociais. O estado percebeu-se anão, e a crise percebeu-se gigante. Nesse momento, quando ninguém conseguia permanecer mais que uma semana na Casa Rosada, pesquisas apontavam Lula como o grande presidente que os argentinos queriam para votar. Senti, então, que a crise havia ensinado aos vizinhos uma lição: a da humildade.

Apesar de Kirchner não ter se apresentado como um político de esquerda, mostra-se mais canhoto que o nosso até então. Recusou gorjetas dos Estados Unidos e peitou o FMI, priorizando o social ao capital. Aproximou-se do Brasil e dos parceiros do Mercosul, acendendo novamente a esperança de um bloco forte na América ao sul da linha do Equador. Acredito que está mais do que na hora de nossa grande imprensa criar juízo e refutar argumentos passionais que visam a desagregação de países latinos. Devem sim abrir mais espaço para sabermos quem são eles. Comenta-se muito sobre Europa e EUA, e pouco ou nada se ouve de nossos vizinhos. É com eles que possuímos, sem dúvida, mais afinidades e cumplicidades. Por nossa vez, aconselho a troca do “encaminhar” pela tecla “delete” quando chegar alguma piadinha pejorativa com nossos hermanos.

O autor, José Paulo Toffano, é secretário de Meio Ambiente de Jaú.

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