Bocaina - A redução do imposto de exportação dos couros e peles wet blue (sem acabamento), anunciada na abertura da Couromoda, em São Paulo, na semana passada, poderá trazer sérios prejuízos aos curtumes de Bocaina (69 quilômetros a Nordeste de Bauru).
A base da economia local é toda voltada à manufatura do couro, principalmente para a fabricação de luvas.
De acordo com números da Associação das Indústrias de Luvas, Artefatos de Couro e Afins (Associcouros), cerca de 2 mil pessoas dependem direta ou indiretamente dos 140 curtumes que estão instalados na cidade.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Bocaina gira em torno de 10 mil pessoas. “É difícil encontrar uma família na cidade que não esteja envolvida com os curtumes”, disse Márcio Ferrari, proprietário da Quality Couros.
A alíquota para exportação, segundo informou o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, baixou de 9% para 7%. A partir do próximo ano, a taxa será de 4% e em 2006, a exportação do couro e wet blue estará completamente isenta de imposto.
O anúncio foi duramente criticado por empresários e políticos que também estavam presentes na abertura da feira.
Ferrari prevê que com a diminuição do imposto, as exportações do material vão aumentar e, com isso, o mercado interno ficará desabastecido.
Para suprir a demanda, as empresas teriam de comprar material de baixa qualidade, nem sempre por um preço menor. Conseqüentemente, as vendas iriam cair e postos de trabalho seriam fechados.
Essa perspectiva sombria é compartilhada por Rui Zanoto, sócio-proprietário da MZ Couros, também de Bocaina.
Segundo ele, muitas empresas da cidade fecharam as portas por falta de matéria-prima no ano passado e a tendência é que a situação fique insustentável com o aumento da exportação.
“Há cerca de dois anos, era difícil encontrar profissional qualificado para trabalhar no curtume. Hoje, eles vêm bater na porta da empresa pedindo emprego”, relata Zanoto.
Na opinião dele, o ideal seria que o governo passasse a incentivar a exportação de produto acabado, o que geraria mais emprego. “O wet blue é uma matéria-prima. Se ela for industrializada no Brasil, vai gerar emprego aqui. Se for industrializada no Exterior, vai gerar emprego lá fora.”
O fornecimento de wet blue, segundo ele, é feito por curtidoras espalhadas pelo País.
Calçado
Por se tratar de uma matéria-prima utilizada na fabricação de calçados, a falta do wet blue vai afetar também a indústria calçadista de Jaú. O setor emprega cerca de 12 mil trabalhadores, direta ou indiretamente, segundo levantamento do Sindicato da Indústria de Calçados de Jaú.
Na opinião de Soave, existe um jogo de interesse em torno da questão. Segundo ele, de um lado está a indústria calçadista, que quer que o couro fique no País para poder oferecer um produto de qualidade por um preço acessível.
Do outro está o governo, que luta pelo aumento das exportações. “O governo está certo, mas nós gostaríamos que o couro fosse exportado em forma de sapato”, comentou.
“O lobby dos curtumes a favor da redução do imposto é muito forte. Infelizmente, nós temos pouquísimas pessoas que lutam pelo calçado”, lamentou Soave.
Segundo ele, para o Brasil ter condições de lutar em condições de igualdade com o fabricante do Exterior, principalmente da China, a taxa para exportação do couro deveria ficar entre 10% e 12%.
“Assim, daria para segurar um pouco de matéria-prima aqui e quem quisesse ainda teria como exportar por um preço razoável”, opinou.